11/10/2007
Augusto Comte : DISCURSO PRELIMINAR SOBRE O ESPÍRITO

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Autor: Augusto Comte

Tradução: Renato Barboza Rodrigues Pereira

Edição eletrônica: Ed Ridendo Castigat Mores (www.jahr.org)

DISCURSO PRELIMINAR SOBRE O ESPÍRITO

POSITIVO

Augusto Comte

ÍNDICE

BIOGRAFIA DO AUTOR

DISCURSO SOBRE O ESPÍRITO POSITIVO

OBJETO DESTE DISCURSO

PARTE I SUPERIORIDADE MENTAL DO ESPÍRITO POSITIVO

Discurso preliminar sobre o espírito positivo

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Capítulo I – Lei da Evolução Intelectual da Humanidade ou Lei dos Três Estados.

Capítulo II – Destino do Espírito Positivo.

Capítulo III – Atributos Correlatos do Espírito Positivo e do Bom Senso

PARTE II SUPERIORIDADE SOCIAL DO ESPÍRITO POSITIVO

Capítulo I –Organização da Revolução

Capítulo II – Sistematização da Moral Humana

Capítulo III – Surto do Sentimento Social

PARTE III CONDIÇÕES DO ADVENTO DA ESCOLA POSITIVA

(Aliança dos Proletários e dos Filósofos)

Capítulo I – Instituição de um Ensino Popular Superior

Capítulo II – Instituição de uma Política Especialmente Popular

Capítulo III – Ordem Necessária dos Estudos Positivos

CONCLUSÃO – APLICAÇÃO AO ENSINO DA ASTRONOMIA

NOTAS

BIOGRAFIA DO AUTOR

Comte, cujo nome completo era Isidore-Auguste-Marie-François-Xavier Comte, nasceu em 19 de janeiro

de 1798, em Montpellier, e faleceu em 5 de setembro de 1857, em Paris. Filósofo e auto-proclamado

líder religioso, deu à ciência da Sociologia seu nome e estabeleceu a nova disciplina em uma forma

sistemática.

Foi aluno da célebre École Polytechnique, uma escola em Paris fundada em 1794 onde se ensinava a

ciência e o pensamento mais avançados da época. De família pobre, sustentou seus estudos com o ensino

ocasional da matemática e oportunidades no jornalismo.

Um de seus primeiros empregos foi o de secretário do Conde Henri de Saint-Simon, o primeiro filósofo a

ver claramente a importância da organização econômica na sociedade moderna, e cujas idéias Comte

absorveu, sistematizou com um estilo pessoal e difundiu.

Comte foi apresentado ao filósofo, então diretor do periódico Industrie, no verão de 1817. Saint-Simon,

um homem de fértil, mas tumultuada e desordenada criatividade, então quase sessenta anos mais velho

que Comte, foi atraído pelo jovem brilhante que possuia a capacidade treinada e metódica para o trabalho

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que lhe faltava. Comte tornou-se seu secretário e colaborador próximo, na preparação de seus últimos

trabalhos. Quando Saint-Simon experimentou problemas financeiros, Comte permaneceu sem pagamento

tanto por razões intelectuais como pela esperanças da recompensa futura.

Os esboços e os ensaios que Comte escreveu durante os anos da associação próxima com Saint-Simon,

especialmente entre 1819 e 1824, mostram inequivocamente a influência do mestre. Esses primeiros

trabalhos já contêm o núcleo de todas suas idéias principais, mesmo as mais tardias. Em 1824 Comte

desentendeu-se com Saint-Simon por questões de autoria legítima de ensaios que Comte devia publicar.

A solução, que Comte considerou injusta, foi que cem cópias do trabalho saíram sob o nome de Comte,

enquanto mil cópias, intituladas Catechisme des industriels indicavam a autoria de Henri de Saint-Simon.

Outra causa do rompimento foi, ironicamente, Comte desdenhar a idéia de um paradigma religioso no

projeto de Saint Simon, ele, Comte, que depois haveria de adotar essa idéia proclamando a si mesmo

como sumo sacerdote da Humanidade.

Em fevereiro 1825 Comte se casou com Caroline Massin, proprietária de uma pequena livraria, uma

moça que ele já conhecia. Comte a achava forte e inteligente, mas depois taxou-a de ambiciosa e

desprovida de afetividade. O casamento foi sempre tumultuado por motivos financeiros, uma vez que

Comte não conseguia uma posição com salário fixo e contava apenas com os rendimentos das aulas

particulares e alguma renda adicional por colaborações a jornais, mais freqüentemente para o Producteur,

um jornal fundado pelos filhos espirituais de Saint-Simon após a morte do mestre.

Depois de se afastar de Saint Simon, a principal preocupação de Comte tornou-se a elaboração de sua

filosofia positiva. Não tendo nenhuma cadeira oficial da qual expor suas teorias, decidiu oferecer um

curso particular que os interessados subscreveriam adiantado, e onde divulgaria sua Summa do

conhecimento positivo. O curso abriu em abril, 1826, com a presença de alguns curiosos ilustres como

Alexander von Humboldt, diversos membros da academia das ciências, o economista Charles Dunoyer, o

duque Napoleon de Montebello, e Hippolyte Carnot, filho do organizador dos exércitos revolucionários e

irmão do cientista Sadi Carnot, e vários estudantes da École Polytechnique.

Comte deu apenas três aulas e foi obrigado a interromper o curso devido a um colapso nervoso. Seu mal

foi diagnosticado como " mania " no hospital do famoso Dr. Esquirol, autor de um tratado sobre a

doença. Ele próprio submeteu Comte a um tratamento com banhos de água fria e sangrias. Apesar de não

receber alta, Comte foi levado para casa por Caroline

Após o retorno para casa, Comte caiu em um estado melancólico profundo, e tentou mesmo o suicidio

jogando-se no rio Sena. Somente em agosto 1828 logrou sair de sua letargia. O curso das conferências foi

recomeçado em 1829, e Comte ficou satisfeito outra vez por encontrar na audiência diversos nomes de

grandes das ciências e das letras.

Durante os anos 1830-1842, quando escreveu sua obra prima, Cours de philosophie positive, Comte

continuou a viver miseravelmente à margem do mundo acadêmico. Todas as tentativas de ser apontado

de para uma cadeira no École Polytechnique ou para uma posição na Academia das ciências ou na

faculdade de França foram infrutíferas. Controlou somente em 1832 a ser apontado assistente de "analyse

et de mecanique" no École; cinco anos mais tarde foi dado também as posições do examinador externo

para a mesma escola. A primeira posição trouxe valiosos dois mil francos e o segundo um pouco mais.

Mas era pouco para as despesas que tinha com a esposa e por isso continuou com as aulas particulares

para escapar da faixa de pobreza.

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Durante os anos da concentração intensa quando escreveu o Cours, Comte foi incomodado não somente

por dificuldades financeiras e as frustradas tentativas de emprego acadêmico. Também sofreu críticas do

mundo científico por parte de importantes figuras que o ridicularizavam pela sua pretensão de submeter

ao seu sistema todas as ciências. A mágoa agravou seu estado psicológico. Por razões "de higiene

cerebral", decidiu-se, em 1838, a não ler mais uma linha de qualquer trabalho científico, limitando-se à

leitura de ficção e poesia. Em seus últimos anos o único livro que haveria de ler repetidamente seria o

"Imitação de Cristo". Sua vida matrimonial, que sempre fora tempestuosa, também se desfez. Comte teve

várias separações de Caroline, que não suportava os seus fracassos e terminou por deixá-lo

definitivamente em 1842.

Só e isolado, continuou a atacar os cientistas que se recusaram a reconhecê-lo. Queixou-se de seus

inimigos aos ministros do Rei, escreveu cartas delirantes à imprensa e atormentou a paciência de seus

poucos restantes amigos. Criando demasiado inimigos na École Polytechnique, sua nomeação como o

examinador não foi renovada em 1844. Perdeu com isto a metade de sua renda. (iria perder também a

posição de assistente na École em 1851.)

Contudo apesar de todos estas adversidades, Comte começou lentamente a adquirir discípulos. E mais

importante para ele foi que, além de encontrar alguns discípulos franceses notáveis, tais como o eminente

intelectual Emile Littre, era o fato de que sua doutrina positiva havia atravessado o Canal e recebera

considerável atenção na Inglaterra. David Brewster, um físico eminente, saudou-o nas páginas do

Edinburgh Review em 1838 e, o mais gratificante de tudo, John Stuart Mill transformou-se em seu

admirador, citando-o em seu System of Logic (1843) como um dos principais pensadores europeus.

Comte e Mill se corresponderam regularmente, e serviu a Comte não somente para refinar seus

pensamentos como também para desabafar com o filósofo inglês as tribulações de sua vida conjugal e as

dificuldades de sua existência material. Mill arrecadou entre admiradores britânicos de Comte uma soma

considerável em dinheiro e lhe enviou como socorro para suas dificuldades financeiras.

No mesmo ano de 1844, Comte conheceu Clotilde de Vaux, por quem se apaixonou. Ela era uma mulher

de trinta anos abandonada pelo marido, um funcionário público do baixo escalão, que havia fugido do

país depois de se apropriar de fundos do governo. Um irmão de Clotilde que havia sido aluno de Comte

na Escola Politécnica, e o convidou a ir à casa de seus pais, onde lhe apresentou a irmã.

Comte ficou inteiramente seduzido por ela. Sua paixão teve, porém, um desdobramento inusitado.

Clotilde estva impedida pela lei de casar-se achando-se o seu marido foragido. Auguste Comte tinha

então quarenta e sete anos, e havia se separado três anos antes de sua mulher. Acabara de concluir seu

monumental Cours de philosophie positive, e se preparava para escrever o que pretendia que seria sua

principal obra, o Système de politique positive, da qual ele considerava o Cours de philosophie como

apenas uma introdução. Entusiasmado com a própria paixão, Auguste Comte afirma que nada pode ser

mais eficaz para o bem pensar que o bem querer, e se tornou um abrasado feminista. Afirmava que a

mulher encarnava o sentimento e portanto, em última análise, a própria Humanidade. Buscou então

seriamente associar o sexo feminino, na pessoa de Clotilde, à obra de renovação social e moral que se

impôs completar. Clotilde tentou colaborar, através de um romance filosófico, Wilhelmine, que ela se

pôs febrilmente a escrever. Mas adoeceu de tuberculose e veio a falecer em 1846.

Comte devotou o resto de sua vida à memória do "seu anjo". O Système de politique positive, que tinha

começado a esboçar em 1844 e no qual completou sua formulação da sociologia, iria transformar-se em

um memorial a sua amada. Cinco anos mais tarde, em 1851, ao publicar essa obra, dedicou-a a Clotilde,

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dizendo esperar que a humanidade, reconhecida, haveria de lembrar sempre seu nome junto ao dela.

No Système de politique positive, Comte, voltando-se contra a doutrina do mestre Saint-Simon, defendeu

a primazia da emoção sobre o intelecto, do sentimento sobre a racionalidade; e proclamou repetidamente

o poder curativo do calor feminino para a humanidade dominada por tempo demasiado pela aspereza do

intelecto masculino. Por outro lado, maquiou a proposta de disciplina eclesiástica de Saint-Simon criando

a Religião da Humanidade.

Quando o Système apareceu entre 1851 e 1854, Comte escandalizou e perdeu a maioria dos seguidores

racionalistas que ele havia conquistado com tanta dificuldade nos últimos quinze anos. John Stuart Mill e

Emile Littre não aceitaram que o amor universal fosse a solução para todas as dificuldades da época. Tão

pouco aceitariam a Religião da Humanidade da qual Comte se proclamou agora o sumo sacerdote. A

observação dos rituais múltiplos segundo o calendário anual, os detalhes da elaborada liturgia indicavam

que o antigo profeta do estágio positivo havia regressado às trevas do estágio teológico. Comte passou a

assinar suas circulares - aos novos discípulos que conseguiu reunir - como "fundador da religião

universal e sumo sacerdote da humanidade". Tentou converter o Superior Geral dos Jesuítas à nova fé e

comparou suas circulares aos discípulos com as epístolas de São Paulo. Fundou a Societé Positiviste, que

se transformou no centro principal de seu ensino. Os membros se cotizaram para assegurar a subsistência

do mestre e fizeram os votos de espalhar sua mensagem. As missões se instalaram, na Espanha,

Inglaterra, Estados Unidos, e na Holanda. Cada noite, das sete às nove, exceto nas quartas-feiras quando

a Societé Positiviste tinha sua reunião regular, Comte recebia seus discípulos em sua casa em Paris:

políticos, intelectuais e operários, que lhe votavam grande respeito e veneração. Comte estava longe do

entusiasmo republicano e libertário de sua juventude. O moto da Igreja Positiva era amor, ordem e

progresso. O jovem estudante de passeata agora pregava as virtudes do amor, da submissão e a

necessidade da ordem para o progresso social.

Em 1857, Comte, após alguns meses de enfermidade, faleceu a cinco de setembro. Um grupo pequeno de

discípulos, de amigos, e de vizinhos seguiu seu esquife ao cemitério de Pere Lachaise. Seu túmulo

transformou-se no centro de um pequeno cemitério positivista onde estão sepultados, perto do mestre,

seus discípulos mais fiéis.

Pensamento. A contribuição principal de Comte à filosofia do positivismo foi sua adoção do método

científico como base para a organização política da sociedade industrial moderna, de modo mais rigoroso

que na abordagem de Saint Simon. Em sua Lei dos três estados ou estágios do desenvolvimento

intelectual, Comte teorizou que o desenvolvimento intelectual humano havia passado historicamente

primeiro por um estágio teológico, em que o mundo e a humanidade foram explicados nos termos dos

deuses e dos espíritos; depois através de um estágio metafísico transitório, em que as explanações

estavam nos termos das essências, de causas finais, e de outras abstrações; e finalmente para o estágio

positivo moderno. Este último estágio se distinguia por uma consciência das limitações do conhecimento

humano. As explanações absolutas consequentemente foram abandonadas, buscando-se a descoberta das

leis baseadas nas relações sensíveis observáveis entre os fenômenos naturais.

Comte tentou também uma classificação das ciências; baseada na hipótese que as ciências tinham

desenvolvido da compreensão de princípios simples e abstratos à compreensão de fenômenos complexos

e concretos. Assim as ciências haviam se desenvolvido a partir da matemática, da astronomia, da física, e

da química para a biologia e finalmente a sociologia. De acordo com Comte, esta última disciplina não

somente fechava a série mas também reduziria os fatos sociais às leis científicas e sintetizaria todo o

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conhecimento humano.

Embora não fosse de Comte o conceito de sociologia ou da sua área de estudo, ele ampliou seu campo e

sistematizou seu conteúdo. Dividiu a Sociologia em dois campos principais: Estática social, ou o estudo

das forças que mantêm unida a sociedade; e Dinâmica social, ou o estudo das causas das mudanças

sociais.

Dando nova roupagem às idéias de Hobbes e Adam Smith, afirmou que os princípios subjacentes da

sociedade são o egoísmo individual, que é incentivado pela divisão de trabalho, e a coesão social se

mantém por meio de um governo e um estado fortes.

Como Saint Simon, queria a administração real do governo e da economia nas mãos dos homens de

negócios e dos banqueiros, porém deu um toque pessoal seu, com origem em sua paixão por Clotilde,

dizendo que a manutenção da moralidade privada seria competência das mulheres como esposas e mães.

Dando ênfase à hierarquia e obediência, rejeitou a democracia, sustentando que o governo ideal seria

constituído por uma elite intelectual. Seu conceito de uma sociedade positiva está no seu Système de

politique positive ("Sistema de Política Positiva").

Como Saint-Simon, ele veio a adotar a idéia de que a organização da igreja católica romana, divorciada

da teologia cristã, podia fornecer um modelo estrutural e simbólico para a sociedade nova, idéia que, no

entanto, fora uma das causas alegadas para seu rompimento com o mestre. Comte substituiu a adoração a

Deus por uma "religião da humanidade"; um sacerdócio espiritual de sociólogos seculares guiaria a

sociedade e controlaria a instrução e a moralidade pública. Comte viveu para ver sua obra comentada

extensamente em toda a Europa. Muitos intelectuais ingleses foram influenciados por ele, e traduziram e

promulgaram seu trabalho. Seus devotos franceses tinham aumentado também, e mantinha uma

correspondência volumosa com sociedades positivistas em todo o mundo.

A habilidade particular de Comte era como um sintetizador das correntes intelectuais as mais diversas.

Tomou idéias principalmente dos filósofos modernos do século XVIII. De Saint-Simon e outros

reformadores franceses menores Comte tomou a noção de uma estrutura hipotética para a organização

social que imitaria a hierarquia e a disciplina existente na igreja católica romana. De vários filósofos do

Iluminismo adotou a noção do progresso histórico e particularmente de David Hume e Immanuel Kant

tomou sua concepção de positivismo, ou seja, a teoria de que o Teologia e a Metafísica são modalidades

primárias imperfeitas do conhecimento e que o conhecimento positivo é baseado em fenômenos naturais

e suas propriedades e relações como verificado pelas ciências empíricas, tese Kantiana por excelência.

O mais importante realmente provém de Saint-Simon, que havia enfatizado originalmente a importância

crescente da ciência moderna e o potencial da aplicação de métodos científicos ao estudo e à melhoria da

sociedade.

De Saint-Simon é originalmente a idéia de que a finalidade da análise científica nova da sociedade deve

ser amelhorativa e que o resultado final de toda a inovação e sistematização na nova ciência deve ser a

orientação do planeamento social. Comte também pensou que era necessário implantar uma ordem

espiritual nova e secularizada a fim de suplantar o sobrenaturalismo ultrapassado da teologia cristã.

Comte seguiu Saint-Simon quando considerou a necessidade de uma ciência social básica e unificadora

que explicasse as organizações sociais existentes e guiasse o planeamento social para um futuro melhor.

Na sua hábil sistematização Comte chamou esta nova ciência "Sociologia", pela primeira vez.

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Temerariamente, porém, foi mais adiante que seu mestre quando afirmou que os fenômenos sociais

poderiam ser reduzidos a leis da mesma maneira que as órbitas dos corpos celestes haviam sido

explicadas pela teoria gravitacional quase trezentos anos antes.

DISCURSO SOBRE O ESPÍRITO POSITIVO

OBJETO DESTE DISCURSO

1. O conjunto dos conhecimentos astronômicos não deve mais ser considerado isoladamente, como até

aqui, mas constituir de ora avante apenas um dos elementos indispensáveis do novo sistema indivisível

de filosofia geral que hoje atingiu finalmente sua verdadeira maturidade abstrata, depois de ter sido

gradualmente preparado pelo concurso espontâneo dos grandes trabalhos científicos dos três últimos

séculos. Em virtude desta íntima conexidade, ainda pouco compreendida, a natureza e o destino deste

Tratado não poderão ser devidamente apreciados se este preâmbulo imprescindível não for consagrado

sobretudo à definição conveniente do verdadeiro e fundamental espírito desta filosofia, cuja instalação

universal deve ser, no fundo, o objetivo precípuo de semelhante ensino. Como ela se distingue

principalmente pela continua preponderância, a um tempo lógica e científica, do ponto de vista histórico

ou social, devo antes de tudo, para melhor caracterizá-la, lembrar de modo sumário a grande lei que

estabeleci, em meu Sistema de Filosofia Positiva, sobre a evolução total da Humanidade, lei à qual os

nossos estudos astronômicos hão de recorrer com freqüência.

I PARTE

SUPERIORIDADE MENTAL DO ESPÍRITO POSITIVO

CAPÍTULO I

LEI DA EVOLUÇÃO INTELECTUAL DA HUMANIDADE OU LEI DOS TRÊS ESTADOS

2. De acordo com esta doutrina fundamental, todas as nossas especulações estão inevitavelmente sujeitas,

assim no indivíduo como na espécie, a passar por três estados teóricos diferentes e sucessivos, que

podem ser qualificados pelas denominações habituais de teológico, metafísico e positivo, pelo menos

para aqueles que tiverem compreendido bem o seu verdadeiro sentido geral. O primeiro estado, embora

seja, a princípio, a todos os respeitos, indispensável deve ser concebido sempre, de ora em diante, como

puramente provisório e preparatório; o segundo, que é, na realidade, apenas a modificação dissolvente do

anterior, não comporta mais que um simples destino transitório, para conduzir gradualmente ao terceiro;

é neste, único plenamente normal, que consiste, em todos os. gêneros, o regime definitivo da razão

humana.

I. Estado teológico ou fictício

3. No seu primeiro surto, necessariamente teológico, todas nossas especulações manifestam de modo

espontâneo uma predileção característica pelas mais insolúveis questões, pelos assuntos mais

radicalmente inacessíveis a qualquer investigação decisiva. O espírito humano, numa época em que está

ainda abaixo dos mais simples problemas científicos, por um contraste, que em nossos dias deve

parecer-nos à primeira vista inexplicável, mas que, no fundo, se acha então em plena harmonia com a

verdadeira situação inicial da nossa inteligência, procura avidamente, e de maneira quase exclusiva, a

origem de todas as coisas, as causas essenciais, quer primárias, quer finais, dos diversos fenômenos que o

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impressionam, e seu modo fundamental de produção, em uma palavra, os conhecimentos absolutos. Esta

necessidade primitiva se acha naturalmente satisfeita tanto quanto o exige tal situação é mesmo, de fato,

tanto quanto o possa jamais ser, por nossa tendência inicial a transportar por toda a parte o tipo humano,

assimilando quaisquer fenômenos aos que nós mesmos produzimos, os quais, por esta razão, começam a

parecer-nos bastante conhecidos, em virtude da intuição imediata que os acompanha. Para compreender

bem o espírito puramente teológico, proveniente do desenvolvimento, cada vez mais sistemático, deste

estado primordial, cumpre não nos limitarmos a considerá-lo na sua última fase que se consuma, à nossa

vista, nas populações mais adiantadas, mas que está longe de ser a mais característica: torna-se

indispensável lançarmos uma vista de olhos verdadeiramente filosófica sobre o conjunto de sua marcha

natural, a fim de apreciarmos sua identidade fundamental sob as três formas principais que lhe são

sucessivamente próprias.

4. A mais imediata e a mais pronunciada destas formas constitui o fetichismo propriamente dito, que

consiste sobretudo em atribuir a todos os corpos exteriores uma vida essencialmente análoga à nossa,

quase sempre, porém mais enérgica, em virtude de sua ação, de ordinário, mais poderosa. A adoração dos

astros caracteriza o grau mais elevado desta primeira fase teológica que, no começo, quase não difere do

estado mental a que atingem os animais superiores. Ainda que esta primeira forma de filosofia teológica

se manifeste com evidência na história intelectual de todas as nossas sociedades, ela já não domina

diretamente hoje senão na menos numerosa das três grandes raças que compõem a nossa espécie.

5. Na sua segunda fase essencial, que constitui o verdadeiro politeísmo, muitas vezes confundido pelos

modernos com o estado precedente, o espírito teológico representa claramente o livre predomínio

especulativo da imaginação, ao passo que até então o instinto e o sentimento tinham sobretudo

prevalecido nas teorias humanas. A filosofia inicial sofre nessa época a mais profunda transformação,

que o conjunto do seu destino real pode comportar, por isso que nela a vida é enfim retirada dos objetos

materiais, para ser misteriosamente transportada a diversos seres fictícios, habitualmente invisíveis, cuja

intervenção ativa e contínua se torna daí por diante a origem direta de todos os fenômenos exteriores e

mesmo em seguida dos fenômenos humanos. E durante esta fase característica, mal apreciada hoje, que

convém principalmente estudar o espírito teológico, que nele se desenvolve com uma plenitude e uma

homogeneidade impossível ulteriormente: esta época é, a todos os respeitos, a do seu maior ascendente,

ao mesmo tempo mental e social. A maioria de nossa espécie não saiu ainda de semelhante estado, que

persiste hoje na mais numerosa das três raças humanas, no escol da raça negra e na parte menos avançada

da branca.

6. Na terceira fase teológica, o monoteísmo propriamente dito dá começo ao inevitável declínio da

filosofia inicial. Esta, embora conserve por dilatado tempo grande influência social, contudo mais

aparente ainda do que real, sofre desde então rápido decréscimo intelectual, como conseqüência

espontânea desta simplificação característica pela qual a razão, unificando os deuses, restringe cada vez

mais o domínio anterior da imaginação e permite desenvolver gradualmente o sentimento universal,

ainda quase insignificante, da sujeição forçosa de todos os fenômenos naturais a leis invariáveis. Sob

formas mui diversas e até radicalmente inconciliáveis, esta fase extrema do regime preliminar persiste

ainda, com energia muito desigual, na imensa maioria da raça branca; mas ainda que seja assim mais

fácil de ser observada, as próprias preocupações pessoais acarretam hoje um obstáculo muito freqüente à

sua judiciosa observação, por falta de uma comparação suficientemente racional e justa com as duas

fases precedentes.

7. Por mais imperfeita que possa parecer agora semelhante maneira de filosofar, muito importa ligar de

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modo indissolúvel o estado atual do espírito humano ao conjunto dos seus estados anteriores,

reconhecendo convenientemente que ela devia ter sido, por muito tempo, tão indispensável como

inevitável. Limitando-nos aqui à simples apreciação intelectual, seria por certo supérfluo insistir sobre a

tendência involuntária que, mesmo hoje, nos arrasta todos às explicações de pura essência teológica, logo

que queremos penetrar diretamente o mistério inacessível do modo fundamental de produção dos

fenômenos, sobretudo daqueles cujas leis reais ainda ignoramos. Os mais eminentes pensadores podem

então verificar a sua própria disposição natural para o mais ingênuo fetichismo, quando esta ignorância

se acha combinada momentaneamente com alguma paixão pronunciada. Se, pois, todas as explicações

teológicas, experimentaram crescente e decisivo desuso entre os modernos ocidentais, isto aconteceu

porque as investigações misteriosas que elas visavam foram cada vez mais afastadas como radicalmente

inacessíveis à nossa inteligência, que se habituou pouco a pouco a substitui-las de modo irrevogável por

estudos mais eficazes e mais em harmonia com as nossas verdadeiras necessidades. Mesmo na época em

que o verdadeiro espírito filosófico já tinha prevalecido em relação aos mais simples fenômenos e em

assunto tão fácil como a teoria elementar do choque, o memorável exemplo de Malebranche lembrará

sempre a necessidade de se recorrer à intervenção direta e constante dos agentes sobrenaturais, todas as

vezes que se procure remontar à causa primeira de qualquer acontecimento. Ora, por outro lado, tais

tentativas, por mais pueris que pareçam justamente hoje, constituíam sem dúvida o início meio primitivo

de provocar as especulações humanas e determinar o seu progresso contínuo, libertando de modo

espontâneo nossa inteligência do círculo vicioso em que a princípio se acha necessariamente envolvida

pela oposição radical de duas condições por igual imperiosas. Se, de fato, os modernos tiveram de

proclamar a impossibilidade de fundar qualquer teoria sólida a não ser sobre um concurso suficiente de

observações adequadas, não é menos incontestável que o espírito humano não poderia jamais combinar,

nem mesmo recolher, esses materiais indispensáveis, sem ser continuamente dirigido por algumas idéias

especulativas previamente estabelecidas. Assim estas concepções primordiais só podiam, é claro, resultar

de uma filosofia que prescindisse, por sua natureza, de qualquer preparo prolongado, sendo capaz, em

uma palavra, de surgir espontaneamente, sob o impulso único de um instinto direto, por mais quiméricas

que devessem ser, além disso, especulações tão desprovidas de todo fundamento real. Tal é o feliz

privilégio dos princípios teológicos, sem os quais podemos assegurar que a nossa inteligência não

poderia nunca sair do seu torpor inicial; a eles permitiram, dirigindo sua atividade especulativa, preparar

gradualmente um regime lógico melhor. Esta aptidão fundamental foi, além disto, poderosamente

secundada pela primitiva predileção do espírito humano pelas questões insolúveis, que atraíam sobretudo

essa filosofia primitiva. Não podíamos avaliar nossas forças mentais, e, por conseguinte, circunscrever

judiciosamente o seu destino, senão depois de exercitá-las suficientemente. Ora, este exercício

indispensável não podia ser desde logo determinado, sobretudo nas mais débeis faculdades da nossa

natureza, sem o enérgico estímulo inerente a tais estudos, nos quais tantas inteligências mal cultivadas

ainda persistem em procurar a mais pronta e a mais completa solução das questões diretamente usuais.

Para vencer suficientemente nossa inércia nativa, foi mesmo preciso durante muito tempo recorrer às

poderosas ilusões que tal filosofia suscitava espontaneamente sobre o poder quase indefinido do homem

para modificar ao seu sabor um mundo então concebido como feito para seu uso e que nenhuma grande

lei podia ainda subtrair à arbitrária supremacia das influências sobrenaturais. Há apenas três séculos que,

no escol da Humanidade, as esperanças astrológicas e alquímicas, último vestígio científico desse

espírito primitivo, deixaram na realidade de servir para o acúmulo diário das observações

correspondentes, como o indicaram respectivamente Kepler e Berthollet.

8. O concurso decisivo destes diversos motivos intelectuais seria além disso poderosamente fortalecido,

se a natureza deste Tratado me permitisse assinalar aqui suficientemente a influência irresistível das altas

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necessidades sociais, que apreciei como convinha na obra fundamental mencionada no início deste

Discurso. Pode-se assim, desde logo, demonstrar em toda a sua plenitude como o espírito teológico foi

por muito tempo indispensável à constante combinação das idéias morais e políticas, ainda mais

especialmente do que a de todas as outras, não só em virtude de sua complicação superior, mas também

porque os fenômenos correspondentes, primitivamente muito pouco pronunciados, só podiam adquirir

um desenvolvimento característico após o avanço muito prolongado da civilização humana. É uma

estranha inconseqüência, apenas desculpável pela tendência cegamente crítica do nosso tempo,

reconhecer a impossibilidade em que se achavam os antigos de filosofar sobre os assuntos mais simples a

não ser de maneira teológica e, não obstante, desconhecer a insuperável necessidade que tinham

sobretudo os politeístas de adotar um regime análogo para as especulações sociais Mas é preciso

compreender, além disso, ainda que eu não o possa demonstrar aqui, que esta filosofia inicial não foi

menos indispensável ao desenvolvimento preliminar de nossa sociabilidade do que ao de nossa

inteligência, quer para constituir primitivamente algumas doutrinas comuns, sem as quais o laço social

não teria podido adquirir nem extensão, nem consistência quer para suscitar espontaneamente a única

autoridade espiritual que poderia então surgir.

II. Estado metafísico ou abstrato

9. Por mais sumárias que tenham sido aqui estas explicações gerais sobre a natureza provisória e o

destino preparatório da única filosofia que convinha realmente à infância da Humanidade, elas permitem

contudo perceber sem dificuldade que o regime teológico difere muito profundamente, sob todos os

aspectos, do que veremos mais adiante corresponder à sua virilidade mental. Para que passagem gradual

de um a outro pudesse operar-se originariamente, assim no indivíduo, como na espécie tornou-se

indispensável o auxílio crescente de uma espécie de filosofia intermediária essencialmente limitada a este

ofício transitório. Tal é a participação especial do espírito metafísico propriamente dito na evolução

fundamental da nossa inteligência, que, antipática a toda mudança repentina, pode elevar-se assim, quase

insensivelmente, do estado puramente teológico ao francamente positivo, se bem que, no fundo, esta

situação equívoca se aproxime muito mais do primeiro do que do último. As especulações dominantes

conservaram no estado metafísico o mesmo caráter essencial de tendência ordinária para os

conhecimentos absolutos: apenas a solução sofreu nele notável transformação, própria a tornar mais fácil

o surto das concepções positivas. Como a Teologia, a Metafísica tenta de fato explicar sobretudo a

natureza íntima dos seres, a origem e o destino de todas as coisas, o modo essencial de produção dos

fenômenos: mas, em vez de empregar para isso os agentes sobrenaturais propriamente ditos, substitui-os

cada vez mais por entidades ou abstrações personificadas, cujo uso, verdadeiramente característico,

amiúde permitiu designá-la sob a denominação de Ontologia. É facílimo observar hoje tal maneira de

filosofar que, preponderante ainda em relação aos fenômenos mais complicados, oferece freqüentemente,

mesmo nas teorias mais simples e menos atrasadas, tantos traços apreciáveis de seu longo domínio.

eficácia histórica destas entidades resulta diretamente do seu caráter equívoco; porque, em cada um

desses seres metafísicos, inerentes ao corpo correspondente, sem se confundir com ele, o espírito pode, à

vontade, conforme esteja mais próximo ao estado teológico ou do positivo, ver uma verdadeira emanação

do poder sobrenatural ou uma simples denominação abstrata da fenômeno considerado. Não é mais então

a pura imaginação que domina e não é ainda a verdadeira observação; mas o raciocínio adquire nessa

fase grande extensão e prepara-se confusamente para o verdadeiro exercício científico Deve-se aliás

notar que sua parte especulativa se acha, a princípio, muito exagerada, em virtude desta obstinada

tendência a argumentar em vez de observar que, em todos os gêneros, caracteriza habitualmente o

espírito metafísico, mesmo em seus mais eminentes órgãos. Uma ordem de concepções tão flexível, que

(1) A

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não comporta absolutamente a consistência por tão longo tempo peculiar ao sistema teológico, deve,

além disso, atingir muito mais rapidamente a unidade correspondente, pela subordinação gradual das

diversas entidades particulares a uma única entidade geral, a Natureza, destinada a representar o fraco

equivalente metafísico da vaga ligação universal dos fenômenos operada pelo monoteísmo.

10. Para compreendermos melhor, sobretudo em nossos dias, a eficácia histórica de semelhante aparelho

filosófico, importa reconhecer que, por sua natureza, ele não é suscetível espontaneamente senão de uma

simples atividade crítica ou dissolvente, mesmo mental, e com mais forte razão social, sem poder jamais

organizar nada que lhe seja próprio. Radicalmente inconseqüente, este espírito equívoco conserva todos

os princípios fundamentais do sistema teológico, tirando-lhe, porém, cada vez mais o vigor e a fixidez

indispensáveis à sua autoridade efetiva; é nesta alteração que consiste, de fato e a todos os respeitos, sua

principal utilidade passageira, que se manifesta quando o regime antigo, por muito tempo progressivo,

para o conjunto da evolução humana, atinge inevitavelmente aquele grau de prolongamento abusivo que

tende a perpetuar de modo indefinido o estado de infância que ele dirigira antes com tanta felicidade. A

Metafísica é, pois, realmente, em essência, apenas uma espécie de teologia enervada pouco e pouco por

simplificações dissolventes, que lhe tiram espontaneamente o poder direto de impedir o desenvolvimento

das concepções positivas, conservando-lhe, contudo, a aptidão provisória para entreter um certo exercido

indispensável do espírito de generalização, até que este possa enfim receber melhor alimento. Em virtude

de seu caráter contraditório, o regime metafísico ou ontológico acha-se sempre na inevitável alternativa

de tender para uma vã restauração do estado teológico a fim de satisfazer às condições de ordem, ou de

impelir a uma situação puramente negativa para escapar ao império opressivo da Teologia. Esta oscilação

necessária, que só se observa agora em relação às teorias mais difíceis, existiu igualmente outrora a

respeito mesmo das mais simples, enquanto durou sua idade metafísica, em virtude da impotência

orgânica sempre peculiar a semelhante maneira de filosofar. Devemos sem temor assegurar que, se a

razão pública não a tivesse afastado desde muito tempo, no que concerne a certas noções fundamentais,

as dúvidas insensatas que ela suscitou, há vinte séculos, sobre a existência dos corpos exteriores,

subsistiriam ainda essencialmente, porque na verdade ela nunca as dissipou por nenhum argumento

decisivo. O estado metafísico pode, pois, ser afinal encarado como uma espécie de doença crônica

naturalmente peculiar à nossa evolução mental, individual ou coletiva, entre a infância e a virilidade.

11. Não remontando as especulações históricas quase nunca, entre os modernos, além dos tempos

politéicos o espírito metafísico deve parecer nelas quase tão antigo como o próprio espírito teológico,

pois que ele presidiu necessariamente, ainda que de modo implícito, à transformação primitiva do

fetichismo em politeísmo, a fim de substituir desde logo a atividade puramente sobrenatural, a qual,

retirada assim de cada corpo particular, devia deixar ai, de modo espontâneo, alguma entidade

correspondente. Como, todavia, esta primeira evolução teológica não pôde dar então lugar a nenhuma

discussão real, a interferência contínua do espírito ontológico só começou a tornar-se plenamente

característica na revolução seguinte, que operou a transformação do politeísmo em monoteísmo, da qual

ele foi o órgão natural. Sua influência crescente devia parecer orgânica a princípio, enquanto se achava

subordinada ao impulso teológico, mas sua natureza essencialmente dissolvente manifestou-se cada vez

mais, quando tentou estender gradualmente a simplificação da Teologia além mesmo do monoteísmo

vulgar, que constituía, sem nenhuma dúvida, a fase extrema realmente possível da filosofia inicial. Foi

assim que, durante os últimos cinco séculos, o espírito metafísico secundou negativamente o. surto

fundamental de nossa civilização moderna, decompondo pouco a pouco o sistema teológico, que se

tornara enfim retrógrado ao terminar a Idade Média, em virtude de achar-se essencialmente esgotada a

eficácia social do regime monotéico. Infelizmente depois de ter realizado, em cada gênero, esse oficio

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indispensável, mas passageiro, a ação demasiado prolongada das concepções ontológicas tendeu sempre

a impedir igualmente qualquer outra organização real do sistema especulativo; de sorte que o mais

perigoso obstáculo à instalação final da genuína filosofia, resulta, com efeito, hoje desse mesmo espírito

que ainda se atribui muitas vezes o privilégio quase excluso das meditações filosóficas.

III. Estado positivo ou real

1o.- Seu principal caráter: a lei da subordinação constante da imaginação à observação

12. Esta longa sucessão de preâmbulos necessários conduz enfim nossa inteligência, gradualmente

emancipada, ao seu estado definitivo de positividade racional, que deve ser caracterizado aqui de um

modo mais especial do que os dois estados preliminares. Tendo tais exercidos preparatórios mostrado

espontaneamente a inanidade radical das explicações vagas e arbitrárias próprias à filosofia inicial, quer

teológica, quer metafísica, o espírito humano renuncia de ora em diante às pesquisas absolutas, que só

convinham à sua infância, e circunscreve os seus esforços ao domínio desde então rapidamente

progressivo, da verdadeira observação, única base possível dos conhecimentos realmente acessíveis,

criteriosamente adaptados às nossas necessidades efetivas. A lógica especulativa tinha até então

consistido em raciocinar, de modo mais ou menos sutil, segundo princípios confusos, que, não

comportando nenhuma prova suficiente, suscitavam sempre debates sem resultado. Ela reconhece de ora

em diante, como regra fundamental, que toda proposição que não é estritamente redutível à simples

enunciação de um fato, particular ou geral, não nos pode oferecer nenhum sentido real e inteligível. Os

princípios que ela emprega não passam em si mesmos de verdadeiros fatos, apenas mais gerais e mais

abstratos do que aqueles cuja ligação devem formar. Qualquer que seja, aliás, o modo racional ou

experimental, de os descobrir, é sempre da sua conformidade, direta ou indireta, com os fenômenos

observados que resulta exclusivamente sua eficácia científica. A pura imaginação perde então de modo

irrevogável a sua antiga supremacia mental e subordina-se necessariamente à observação, de maneira a

constituir um estado lógico plenamente normal, sem deixar contudo de exercer, nas especulações

positivas, um papel tão capital como inesgotável, para criar ou aperfeiçoar os meios de ligação, quer

definitiva, quer provisória. Em uma palavra, a revolução fundamental que caracteriza o estado viril de

nossa inteligência consiste em substituir por toda a parte a inacessível determinação das causas

propriamente ditas, pela simples pesquisa das leis, isto é, das relações constantes que existem entre os

fenômenos observados. Quer se trate dos menores ou dos mais sublimes efeitos, do choque e da

gravidade, quer do pensamento e da moralidade, deles não podemos conhecer realmente senão as

diversas ligações mútuas próprias à sua realização, sem nunca penetrar o mistério da sua produção.

2o. – Natureza relativa do espírito positivo

13. Nossas especulações positivas devem não só confinar-se essencialmente, sob todos os aspectos, à

apreciação sistemática dos fatos existentes, renunciando a descobrir sua primeira origem e o seu destino

final, mas importa também ainda compreender que este estudo dos fenômenos não deve tornar-se de

qualquer modo absoluto, mas permanecer sempre relativo à nossa organização e à nossa situação.

Reconhecendo sob este duplo aspecto, como são imperfeitos os nossos meios especulativos, vemos que,

longe de podermos estudar completamente qualquer existência efetiva, não poderemos sequer garantir a

possibilidade de conhecer, mesmo de modo muito superficial, todas as existências reais, das quais a

maior parte talvez nos deva escapar totalmente. Se a perda de um sentido importante basta para nos

ocultar uma ordem inteira de fenômenos naturais, é perfeitamente razoável pensar-se, reciprocamente,

que a aquisição de um novo sentido nos descobriria uma classe de fatos dos quais não temos agora

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nenhuma idéia, a não ser que acreditemos que a acuidade dos sentidos, tão diferente entre os principais

tipos de animalidade, se acha elevada em nosso organismo no mais alto grau que possa exigir a

exploração total do mundo exterior, hipótese evidentemente gratuita e quase ridícula. Nenhuma ciência

pode manifestar melhor do que a Astronomia a natureza necessariamente relativa de todos os nossos

conhecimentos reais, pois não podendo realizar-se nela a investigação dos fenômenos senão através de

um único sentid

posted by o libertino at 09:51 | in:
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