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Eu e Outros Poemas

Augusto dos Anjos

A AERONAVE

Cindindo a vastidão do Azul profundo,

Sulcando o espaço, devassando a terra,

A Aeronave que um mistério encerra

Vai pelo espaço acompanhando o mundo.

E na esteira sem fim da azúlea esfera

Ei-la embalada na amplidão dos ares,

Fitando o abismo sepulcral dos mares

Vencendo o azul que ante si erguera.

Voa, se eleva em busca do Infinito,

É como um despertar de estranho mito,

Auroreando a humana consciência.

Cheia da luz do cintilar de um astro,

Deixa ver na fulgência do seu rastro

A trajetória augusta da Ciência.

A ÁRVORE DA SERRA

- As árvores, meu filho, não têm alma!

E esta árvore me serve de empecilho...

É preciso cortá-la, pois, meu filho,

Para que eu tenha uma velhice calma!

- Meu pai, por que sua ira não se acalma?!

Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?!

Deus pôs almas nos cedros... no junquilho...

Esta árvore, meu pai, possui minha alma!...

- Disse - e ajoelhou-se, numa rogativa:

"Não mate a árvore, pai, para que eu viva!"

E quando a árvore, olhando a pátria serra,

Caiu aos golpes do machado bronco,

O moço triste se abraçou com o tronco

E nunca mais se levantou da terra!

CARIDADE

No universo a caridade

Em contraste ao vício infando

É como um astro brilhando

Sobre a dor da humanidade!

Nos mais sombrios horrores

Por entre a mágoa nefasta

A caridade se arrasta

Toda coberta de flores!

Semeadora de carinhos

Ela abre todas as portas

E no horror das horas mortas

Vem beijar os pobrezinhos.

Torna as tormentas mais calmas

Ouve o soluço do mundo

E dentro do amor profundo

Abrange todas as almas.

O céu de estrelas se veste

Em fluidos de misticismo

Vibra no nosso organismo

Um sentimento celeste.

A alegria mais acesa

Nossas cabeças invade...

Glória, pois, à Caridade

No seio da Natureza!

Estribilho

Cantemos todos os anos

Na festa da Caridade

A solidariedade

Dos sentimento humanos.

A DANÇA DA PSIQUE

A dança dos encéfalos acesos

Começa. A carne é fogo. A alma arde. A

[espaços

As cabeças, as mãos, os pés e os braços

Tombam, cedendo à ação de ignotos pesos!

É então que a vaga dos instintos presos

- Mãe de esterilidades e cansaços -

Atira os pensamentos mais devassos

Contra os ossos cranianos indefesos.

Subitamente a cerebral coréia

Pára. O cosmos sintético da Idéia

Surge. Emoções extraordinárias sinto...

Arranco do meu crânio as nebulosas.

E acho um feixe de forças prodigiosas

Sustentando dois monstros: a alma e o instinto!

A DOR

Chama-se a Dor, e quando passa, enluta

E todo mundo que por ela passa

Há de beber a taça da cicuta

E há de beber até o fim da taça!

Há de beber, enxuto o olhar, enxuta

A face, e o travo há de sentir, e a ameaça

Amarga dessa desgraçada fruta

Que é a fruta amargosa da Desgraça!

E quando o mundo todo paralisa

E quando a multidão toda agoniza,

Ela, inda altiva, ela, inda o olhar sereno

De agonizante multidão rodeada,

Derrama em cada boca envenenada

Mais uma gota do fatal veneno!

A ESMOLA DE DULCE

Ao Alfredo A.

E todo o dia eu vou como um perdido

De dor, por entre a dolorosa estrada,

Pedir a Dulce, a minha bem amada

A esmola dum carinho apetecido.

E ela fita-me, olhar enlanguescido,

E eu balbucio trêmula balada:

- Senhora dai-me u'a esmola - e estertorada

A minha voz soluça num gemido.

Morre-me a voz, e eu gemo o último harpejo,

Estendendo à Dulce a mão, a fé perdida,

E dos lábios de Dulce cai um beijo.

Depois, como este beijo me consola!

Bendita seja a Dulce! A minha vida

Estava unicamente nessa esmola.

A ESPERANÇA

A Esperança não murcha, ela não cansa,

Também como ela não sucumbe a Crença.

Vão-se sonhos nas asas da Descrença,

Voltam sonhos nas asas da Esperança.

Muita gente infeliz assim não pensa;

No entanto o mundo é uma ilusão completa,

E não é a Esperança por sentença

Este laço que ao mundo nos manieta?

Mocidade, portanto, ergue o teu grito,

Sirva-te a Crença de fanal bendito,

Salve-te a glória no futuro - avança!

E eu, que vivo atrelado ao desalento,

Também espero o fim do meu tormento,

Na voz da Morte a me bradar; descansa!

A FLORESTA

Em vão com o mundo da floresta privas!...

- Todas as hermenêuticas sondagens,

Ante o hieroglifo e o enigma das folhagens,

São absolutamente negativas!

Araucárias, traçando arcos de ogivas,

Bracejamentos de álamos selvagens,

Como um convite para estranhas viagens,

Tornam todas as almas pensativas!

Há uma força vencida nesse mundo!

Todos o organismo florestal profundo

É dor viva, trancada num disfarce...

Vivem só, nele, os elementos broncos,

- As ambições que se fizeram troncos,

Porque nunca puderam realizar-se!

A FOME E O AMOR

Fome! E, na ânsia voraz que, ávida, aumenta,

Receando outras mandíbulas e esbangem,

Os dentes antropófagos que rangem,

Antes da refeição sanguinolenta!

Amor! E a satiríase sedenta,

Rugindo, enquanto as almas se confrangem,

Todas as danações sexuais que abrangem

A apolínica besta famulenta!

Ambos assim, tragando a ambiência vasta,

No desembestamento que os arrasta,

Superexcitadíssimos, os dois

Representam, no ardor dos seus assomos

A alegoria do que outrora fomos

E a imagem bronca do que inda hoje sois!

A IDÉIA

De onde ela vem?! De que matéria bruto

Vem essa luz que sobre as nebulosas

Cai de incógnitas criptas misteriosas

Como as estalactites duma gruta?!

Vem da psicogenética e alta luta

Do feixe de moléculas nervosas,

Que, em desintegrações maravilhosas,

Delibera, e depois, quer e executa!

Vem do encéfalo absconso que a constringe,

Chega em seguida às cordas do laringe,

Tísica, tênue, mínima, raquítica...

Quebra a força centrípeta que a amarra,

Mas, de repente, e quase morta, esbarra

No molambo da língua paralítica!

A ILHA DE CIPANGO

Estou sozinho! A estrada se desdobra

Como uma imensa e rutilante cobra

De epiderme finíssima de areia...

E por essa finíssima epiderme

Eis-me passeando como um grande verme

Que, ao sol, em plena podridão, passeia!

A agonia do sol vai ter começo!

Caio de joelhos, trêmulo... Ofereço

Preces a Deus de amor e de respeito

E o Ocaso que nas águas se retrata

Nitidamente reproduz, exata,

A saudade interior que há no meu peito...

Tenho alucinações de toda a sorte...

Impressionado sem cessar com a Morte

E sentindo o que um lázaro não sente,

Em negras nuanças lúgubres e aziagas

Vejo terribilíssimas adagas,

Atravessando os ares bruscamente.

Os olhos volvo para o céu divino

E observo-me pigmeu e pequenino

Através de minúsculos espelhos.

Assim, quem diante duma cordilheira,

Pára, entre assombros, pela vez primeira,

Sente vontade de cair de joelhos!

Soa o rumor fatídico dos ventos,

Anunciando desmoronamentos

De mil lajedos sobre mil lajedos...

E ao longe soam trágicos fracassos

De heróis, partindo e fraturando os braços

Nas pontas escarpadas dos rochedos!

Mas de repente, num enleio doce,

Qual se num sonho arrebatado fosse,

Na ilha encantada de Cipango tombo,

Da qual, no meio, em luz perpétua, brilha

A árvore da perpétua maravilha,

À cuja sombra descansou Colombo!

Foi nessa ilha encantada de Cipango,

Verde, afetando a forma de um losango,

Rica, ostentando amplo floral risonho,

Que Toscanelli viu seu sonho extinto

E como sucedeu a Afonso Quinto

Foi sobre essa ilha que extingui meu sonho!

Lembro-me bem. Nesse maldito dia

O gênio singular da Fantasia

Convidou-me a sorrir para um passeio...

Iríamos a um país de eternas pazes

Onde em cada deserto há mil oásis

E em cada rocha um cristalino veio.

Gozei numa hora séculos de afagos,

Banhei-me na água de risonhos lagos,

E finalmente me cobri de flores...

Mas veio o vento que a Desgraça espalha

E cobriu-me com o pano da mortalha,

Que estou cosendo para os meus amores!

Desde então para cá fiquei sombrio!

Um penetrante e corrosivo frio

Anestesiou-me a sensibilidade

E as grandes golpes arrancou as raízes

Que prendiam meus dias infelizes

A um sonho antigo de felicidade!

Invoco os Deuses salvadores do erro.

A tarde morre. Passa o seu enterro!...

A luz descreve ziguezagues tortos

Enviando à terra os derradeiros beijos.

Pela estrada feral dois realejos

Estão chorando meus amores mortos!

E a treva ocupa toda a estrada longa...

O Firmamento é uma caverna oblonga

Em cujo fundo a Via-láctea existe.

E como agora a lua cheia brilha!

Ilha maldita vinte vezes a ilha

Que para todo o sempre me fez triste!

A LOUCA

Quando ela passa: - a veste desgrenhada,

O cabelo revolto em desalinho,

No seu olhar feroz eu adivinho

O mistério da dor que a traz penada.

Moça, tão moça e já desventurada;

Da desdita ferida pelo espinho,

Vai morta em vida assim pelo caminho,

No sudário da mágoa sepultada.

Eu sei a sua história. - Em seu passado

Houve um drama d'amor misterioso

- O segredo d'um peito torturado -

E hoje, para guardar a mágoa oculta,

Canta, soluça - o coração saudoso,

Chora, gargalha, a desgraçada estulta.

A LUVA

Para o Augusto Belmont

Pensa na glória! Arfa-lhe o peito, opresso.

- O pensamento é uma locomotiva -

Tem a grandeza duma força viva

Correndo sem cessar para o Progresso.

Que importa que, contra ele, horrendo e preto

O áspide abjeto do Pesar se mova!...

E só, no quadrilátero da alcova,

Vem-lhe à imaginação este soneto:

"A princípio escrevia simplesmente

Para entreter o espírito... Escrevia

Mais por impulso de idiossincrasia

Do que por uma propulsão consciente.

Entendi, depois disso, que devia,

Como Vulcano, sobre a forja ardente,

Durante as vinte e quatro horas o dia!

Riam de mim, os monstros zombeteiros.

Trabalharei assim dias inteiros,

Sem ter uma alma só que me idolatre...

Tenha a sorte de Cícero proscrito

Ou morra embora, trágico e maldito,

Como Camões morrendo sobre um catre!"

Nisto, abre, em ânsias, a tumbal janela

E diz, olhando o céu que além se expande:

"- A maldade do mundo é muito grande,

Mas meu orgulho ainda é maior do que ela!

Quebro montanhas e aos tufões resisto

Numa absoluta impassibilidade",

E como um desafio à eternidade

Atira a luva para o próprio Cristo!

Chove. Sobre a cidade geme a chuva,

Batem-lhe os nervos, sacudindo-o todo,

E na suprema convulsão o doudo

Parece aos astros atirar a luva!

A MÁSCARA

Eu se que há muito pranto na existência,

Dores que ferem corações de pedra,

E onde a vida borbulha e o sangue medra,

Aí existe a mágoa em sua essência.

No delírio, porém, da febre ardente

Da ventura fugaz e transitória

O peito rompe a capa tormentória

Para sorrindo palpitar contente.

Assim a turba inconsciente passa,

Muitos que esgotam do prazer a taça

Sentem no peito a dor indefinida.

E entre a mágoa que a másc'ra eterna apouca

A Humanidade ri-se e ri-se louca

No carnaval intérmino da vida.

A MERETRIZ

A rua dos destinos desgraçados

Faz medo. O Vício estruge. Ouvem-se os brados

Da danação carnal... Lúbrica, à lua,

Na sodomia das mais negras bodas

Desarticula-se, em coréas doudas,

Uma mulher completamente nua!

É a meretriz que, de cabelos ruivos,

Bramando, ébria e lasciva, hórridos uivos

Na mesma esteira pública, recebe,

Entre farraparias e esplendores

O eretismo das classes superiores

E o orgasmo bastardíssimo da plebe!

É ela que, aliando, à luz do olhar protervo,

O indumento vilíssimo do servo

Ao brilho da augustal toga pretexta,

Sente, alta noite, em contorções sombrias,

Na vacuidade das entranhas frias

O esgotamento intrínseco da besta!

É ela que, hirta, a arquivar credos desfeitos,

Com as mãos chagadas, espremendo os peitos,

Reduzidos, por fim, a âmbulas moles,

Sofre em cada molécula a angústia alta

De haver secado, como o estepe, à falta

Da água criadora que alimenta as proles!

É ela que, arremessada sobre o rude

Despenhadeiro da decrepitude,

Na vizinhança aziaga dos ossuários

Representa, através os meus sentidos,

A escuridão dos gineceus falidos

E a desgraça de todos os ovários!

Irrita-se-lhe a carne à meia-noite.

Espicaça-a ignomínia, excita-a o açoite

Do incêndio que lhe inflama a língua espúria.

E a mulher, funcionária dos instintos,

Com a roupa amarfanhada e os beiços tintos,

Gane instintivamente de luxúria!

Navio para o qual todos os portos

Estão fechados, urna de ovos mortos,

Chão de onde uma só planta não rebenta,

Ei-la, de bruços, bêbeda de gozo

Saciando o geotropismo pavoroso

De unir o corpo à terra famulenta!

Nesse espolinhamento repugnante

O esqueleto irritado da bacante

Estrala... Lembra o ruído harto azorrague

A vergastar ásperos dorsos grossos.

E é aterradora essa alegria de ossos

Pedindo ao sensualismo que os esmague!

É o pseudo-regozijo dos eunucos

Por natureza, dos que são caducos

Desde que a Mãe-Comum lhes deu início...

É a dor profunda da incapacidade

Que, pela própria hereditariedade

A lei da seleção disfarça em Vício!

É o júbilo aparente da alma quase

A eclipsar-se, no horror da ocídua fase

Esterilizadora de órgãos... É o hino

Da matéria incapaz, filha do inferno,

Pagando com volúpia o crime eterno

De não ter sido fiel ao seu destino!

É o Desespero que se faz bramido

De anelo animalíssimo incontido,

Mais que a vaga incoercível n água oceânea...

É a Carne que, já morta essencialmente,

Para a Finalidade Transcendente

Gera o prodígio anímico da Insânia!

Nas frias antecâmaras do Nada

O fantasma da fêmea castigada,

Passa agora ao clarão da lua acesa

E é seu corpo expiatório, alvo e desnudo

A síntese eucarística de tudo

Que não se realizou na Natureza!

Antigamente, aos tácitos apelos

Das suas carnes e dos seus cabelos,

Na óptica abreviatura de um reflexo,

Fulgia, em cada humana nebulosa,

Toda a sensualidade tempestuosa

Dos apetites bárbaros do Sexo!

O atavismo das raças sibaritas,

Criando concupiscências infinitas

Como eviterno lobo insatisfeito;

Na homofagia hedionda que o consome,

Vinha saciar a milenária fome

Dentro das abundâncias do seu leito!

Toda a libidinagem dos mormaços

Americanos fluía-lhe dos braços,

Irradiava-se-lhe, hírcica, das veias

E em torrencialidades quentes e úmidas,

Gorda a escorrer-lhe das artérias túmidas

Lembrava um transbordar de ânforas cheias.

A hora da morte acende-lhe o intelecto

E à úmida habitação do vício abjecto

Afluem milhões de sóis, rubros, radiando...

Resíduos memoriais tornam-se luzes

Fazem-se idéias e ela vê as cruzes

Do seu martirológio miserando!

Inícios atrofiados de ética, ânsia

De perfeição, sonhos de culminância,

Libertos da ancestral modorra calma,

Saem da infância embrionária e erguem-se, adultos,

Lançando a sombra horrível dos seus vultos

Sobre a noite fechada daquela alma!

É o sublevantamento coletivo

De um mundo inteiro que aparece vivo,

Numa cenografia de diorama,

Que, momentaneamente luz fecunda,

Brilha na prostituta moribunda

Como a fosforescência sobre a lama!

É a visita alarmante do que outrora

Na abundância prospérrima da aurora,

Pudera progredir, talvez, decerto,

Mas que, adstrito a inferior plasma inconsútil,

Ficou rolando, como aborto inútil,

Como o ...... do deserto!

Vede! A prostituição ofídia aziaga

Cujo tóxico instila a infâmia, e a estraga

Na delinqüência...... impune,

Agarrou-se-lhe aos seios impudicos

Como o abraço mortífero do Ficus

Sugando a seiva da árvore a que se une!

Enroscou-se-lhe aos abraços com tal gosto,

Mordeu-lhe a boca e o rosto...

Ser meretriz depois do túmulo! A alma

Roubada a hirta quietude da urbe calma

Onde se extinguem todos os escolhos:

E, condenada, ao trágico ditame,

Oferecer-se à bicharia infame

Com a terra do sepulcro a encher-lhe os olhos!

Sentir a língua aluir-se-lhe na boca

E com a cabeça sem cabelos, oca...

Na horrorosa avulsão da forma nívea

Dizer ainda palavras de lascívia...

À MESA

Cedo à sofreguidão do estômago. É a hora

De comer. Coisa hedionda! Corro. E agora,

Antegozando a ensangüentada presa,

Rodeado pelas moscas repugnantes,

Para comer meus próprios semelhantes

Eis-me sentado à mesa!

Como porções de carne morta... Ai! Como

Os que, como eu, têm carne, com este assomo

Que a espécie humana em comer carne tem!...

Como! E pois que a Razão me não reprime,

Possa a terra vingar-se do meu crime

Comendo-me também.

A MINHA ESTRELA

Eu disse - Vai-te, estrela do Passado!

Esconde-te no Azul da Imensidade,

Lá onde nunca chegue esta saudade,

- A sombra deste afeto estiolado.

Disse, e a estrela foi p'ra o Céu subindo,

Minh'alma que de longe a acompanhava,

Viu o adeus que ela do Céu enviava,

E quando ela no Azul foi se sumindo

Surgia a Aurora - a mágica princesa!

E eu vi o Sol do Céu iluminando

A Catedral da Grande Natureza.

Mas a noite chegou, triste, com ela

Negras sombras também foram chegando,

E eu nunca mais vi a minha estrela!

A MORTE DE VÊNUS

Velhos berilos, pálidas cortinas,

Morno frouxel de nardos recendendo

Velam-lhe o sono... e Vênus vai morrendo

No berço azul das névoas matutinas!

Halos de luz de brancas musselinas

Vão-lhe do corpo virginal descendo

- Abelha irial que foi adormecendo

Sobre um coxim de pérolas divinas.

E quando o Sol lhe beija a espádua nua,

Cai-lhe da carne o resplendor da Lua

No reverbero dos deslumbramentos...

Enquanto no ar há sândalos, há flores

E haustos de morte - os últimos clangores

Da música chorosa dos mementos!

A NAU

A Heitor Lima

Sôfrega, alçando o hirto esporão guerreiro,

Zarpa. A íngreme cordoalha úmida fica...

Lambe-lhe a quilha a espúmea onda impudica

E ébrios tritões, babando, haurem-lhe o cheiro!

Na glauca artéria equórea ou no estaleiro

Ergue a alta mastreação, que o Éter indica,

E estende os braços da madeira rica

Para as populações do mundo inteiro!

Aguarda-a ampla reentrância de angra horrenda,

Pára e, a amarra agarrada à âncora, sonha!

Mágoas, se as tem, subjugue-as ou disfarce-as...

E não haver uma alma que lhe entenda

A angústia transoceânica medonha

No rangido de todas as enxárcias!

A NOITE

A nebulosidade ameaçadora

Tolda o éter, mancha a gleba, agride os rios

E urde amplas teias de carvões sombrios

No ar que álacre e radiante, há instantes, fora.

A água transubstancia-se. A onda estoura

Na negridão do oceano e entre os navios

Troa bárbara zoada de ais bravios,

Extraordinariamente atordoadora.

À custódia do anímico registro

A planetária escuridão se anexa...

Somente, iguais a espiões que acordam cedo,

Ficam brilhando com fulgor sinistro

Dentro da treva onímoda e complexa

Os olhos fundos dos que estão com medo!

A OBSESSÃO DO SANGUE

A obsessão do sangue

Acordou, vendo sangue... Horrível! O osso

Frontal em fogo... Ia talvez morrer,

Disse. Olhou-se no espelho. Era tão moço,

Ah! certamente não podia ser!

Levantou-se. E, eis que viu, antes do almoço,

Na mão dos açougueiros, a escorrer

Fita rubra de sangue muito grosso,

A carne que ele havia de comer!

No inferno da visão alucinada,

Viu montanhas de sangue enchendo a estrada,

Viu vísceras vermelhas pelo chão...

E amou, com um berro bárbaro de gozo,

O monocromatismo monstruoso

Daquela universal vermelhidão!

A PESTE

Filha da raiva de Jeová - a Peste

N'um insano ceifar que aterra e espanta,

De espaço a espaço sepulturas planta

E em cada coração planta um cipreste!

Exulta o Eterno e... tudo chora, tudo!

Quando Ela passa, semeando a Morte,

Todos dizem co'os olhos para a Sorte

- É o castigo de Deus que passa mudo!

- Fúlgido foco de escaldantes brasas

- O sol a segue, e a Peste ri-se, enquanto

Vai devastando o coração das casas...

E como o sol que a segue e deixa um rastro

De luz em tudo, ela, como o sol - o astro -

Deixa um rastro de luto em cada canto!

A UM CARNEIRO MORTO

Misericordiosíssimo carneiro

Esquartejado, a maldição de Pio

Décimo caia em teu algoz sombrio

E em todo aquele que for seu herdeiro!

Maldito seja o mercador vadio

Que te vender as carnes por dinheiro,

Pois, tua lã aquece o mundo inteiro

E guarda as carnes dos que estão com frio!

Quando a faca rangeu no teu pescoço,

Ao monstro que espremeu teu sangue grosso

Teus olhos - fontes de perdão - perdoaram!

Oh! tu que no Perdão eu simbolizo,

Se fosses Deus, no Dia de Juízo,

Talvez perdoasses os que te mataram!

A UM EPILÉPTICO

Perguntarás quem sou?! - ao suor que te unta,

À dor que os queixos te arrebenta, aos trismos

Da epilepsia horrenda, e nos abismos

Ninguém responderá tua pergunta!

Reclamada por negros magnetismos

Tua cabeça há de cair, defunta

Na aterradora operação conjunta

Da tarefa animal dos organismos!

Mas após o antropófago alambique

Em que é mister todo o teu corpo fique

Reduzido a excreções de sânie e lodo,

Como a luz que arde, virgem, num monturo,

Tu hás de entrar completamente puro

Para a circulação do Grande Todo!

A UM GÉRMEN

Começaste a existir, geléia crua,

E hás de crescer, no teu silêncio, tanto

Que, é natural, ainda algum dia, o pranto

Das tuas concreções plásmicas flua!

A água, em conjugação com a terra nua,

Vence o granito, deprimindo-o... O espanto

Convulsiona os espíritos, e entanto,

Teu desenvolvimento continua!

Antes, geléia humana, não progridas

E em retrogradações indefinidas,

Volvas à antiga inexistência calma!...

Antes o Nada, oh! gérmen, que ainda haveres

De atingir, como o gérmen de outros seres,

Ao supremo infortúnio de ser alma!

A UMA MÁRTIR

Alma em cilício, vem, enrista a clava,

Brande no seio o espículo e o acínace

E unjam-te o seio que dauroras nasce

Sangrentas bênçãos eclodindo em lava!

Nossa Senhora te unge a face escrava,

Cristo saudoso te abençoa a face

De monja - violeta que do Céu baixasse

À Virgem Santa Natureza brava!

Vais caminhando para a terra extrema,

Rosa dos Sonhos! e o teu galho trema

E a tua crença, o desespero mate-a...

E em nuvens;ouro ascende enfim ao plaustro

Da Neve Eterna, estrela azul do claustro,

Levada para o Azul da Via-Látea!

A UM MASCARADO

Rasga essa máscara ótima de seda

E atira-a à arca ancestral dos palimpsestos...

É noite, e, à noite, a escândalos e incestos

É natural que o instinto humano aceda!

Sem que te arranquem da garganta queda

A interjeição danada dos protestos,

Hás de engolir, igual a um porco, os restos

Duma comida horrivelmente azeda!

A sucessão de hebdômadas medonhas

Reduzirá os mundos que tu sonhas

Ao microcosmos do ovo primitivo...

E tu mesmo, após a árdua e atra refrega,

Terás somente uma vontade cega

E uma tendência obscura de ser vivo!

A VITÓRIA DO ESPÍRITO

Era uma preta, funeral mesquita,

Abandonada aos lobos e aso leopardos

Numa floresta lúgubre e esquisita.

Engalanava-lhe as paredes frias

Uma coroa de urzes e de cardos

Coberta em pálio pelas laçarias.

Uma vez, aos lampejos derradeiros

Das irisadas vespertinas velas,

feras rompiam tojos e balseiros.

E pelas catacumbas desprezadas,

Mochos vagavam como sentinelas,

Em atalaia às gerações passadas!

Um crepúsculo imenso, nuca visto

Tauxiava o Céu de grandes vidros roxos

Da mesma cor da túnica de Cristo.

Fulgia em tudo uma estriação violeta

E um violáceo clarão banhava os mochos

Que em torno estavam da mesquita preta.

Já na eminência da amplidão sidérea

Como uma umbela, se desenrolava

A esteira astral da retração etérea.

Os astros mortos refulgiam vivos

E a noite, ampla e brilhante, rutilava

Lantejoulada de opalinos crivos.

Súbito alguém, o passo constrangendo,

Parou em frente da mesquita morta...

- U vento frio começou gemendo.

Era uma viúva, e o olhar errante, a viúva,

Em passo lento, foi transpondo a porta,

Eternamente aberta ao sol e à chuva.

A Lua encheu o espaço sem limites

E, dentro, nos altares esboroados,

Foram caindo como estalactites

Sobre o ouro e a prata das alfaias priscas

Um dilúvio de fósforos prateados

E uma chuva dourada de faíscas.

Fora, entretanto, por um chão de onagras

Vinha passeando como numa viagem

Um grupo feio de panteras magras.

E havia no atro olhar dessas panteras

Essa alegria doida da carnagem

Que é a alegria única das feras.

E ardendo na impulsão das ânsias doudas

E em sevas fúrias, infernais ardendo

Todas as feras, as panteras todas

Avançam para a viúva desvalida.

E raivosas, contra ela, arremetendo,

Tiram-lhe todas ali mesmo a vida.

Morria a noite. As flâmulas altivas

Do sol nascente erguiam-se vermelhas,

Como uma exposição de carnes vivas.

E iam cair em pérolas de sangue

Sobre as asas doiradas das abelhas,

E sobre o corpo da viúva exangue.

A Natureza celebrava a festa

Do astro glorioso em cantos e baladas

- O próprio Deus cantava na floresta!

Nos arvoredos rejuvenescidos,

Estrugiam canções desesperadas

De misereres e de sustenidos.

Além, entanto, na redoma clara

Que envolve a porta da região etérea,

O espírito da viúva se quedara

Ao contemplar dessa fulgente porta

E dessa clara e alva redoma aérea,

No desfilar de sua carne morta

A transitoriedade da matéria!

ABANDONADA

Bem depressa sumiu-se a vaporosa

Nuvem de amores, de ilusões tão bela;

O brilho se apagou daquela estrela

Que a vida lhe tornava venturosa!

Sombras que passam, sombras cor-de-rosa

- Todas se foram num festivo bando,

Fugazes sonhos, gárrulos voando

- Resta somente um'alma tristurosa!

Coitada! o gozo lhe fugiu correndo,

Hoje ela habita a erma soledade,

Em que vive e em que aos poucos vai morrendo!

Seu rosto triste, seu olhar magoado,

Fazem lembrar em noite de saudade

A luz mortiça d'um olhar nublado.

ABERRAÇÃO

Na velhice automática e na infância,

(Hoje, ontem, amanhã e em qualquer era)

Minha hibridez é a súmula sincera

Das defectividades da Substância.

Criando na alma a estesia abstrusa da ânsia,

Como Belerofonte com a Quimera

Mato o ideal; cresto o sonho; achato a esfera

E acho odor de cadáver na fragrância!

Chamo-me Aberração. Minha alma é um misto

De anomalias lúgubres. Existo

Como a cancro, a exigir que os sãos enfermem...

Teço a infâmia; urdo o crime; engendro o lodo

E nas mudanças do Universo todo

Deixo inscrita a memória do meu gérmen!

AFETOS

Bendito o amor que infiltra n'alma o enleio

E santifica da existência o cardo,

- Amor que é mirra e que é sagrado nardo,

Turificando a lenguidez dum seio!

O amor, porém, que da Desgraça veio

Maldito seja, seja como o fardo

Desta descrença funeral em que ardo

E com que o fogo da paixão ateio!

Funebulescamente a alma se atira

À luta das paixões, e, como a Aurora

Que ao beijo vesperal anseia e expira,

Desce para a alma o ocaso da Carícia

Ora em sonhos de Dor, supremos, e ora

Em contorções supremas de Delícia!

AGONIA DE UM FILÓSOFO

Consulto o Phtah-Hotep. Leio o obsoleto

Rig-Veda. E, ante obras tais, me não consolo...

O Inconsciente me assombra e eu nele rolo

Com a eólica fúria do harmatã inquieto!

Assisto agora à morte de um inseto!...

Ah! todos os fenômenos do solo

Parecem realizar de pólo a pólo

O ideal de Anaximandro de Mileto!

No hierático areópago heterogêneo

Das idéias, percorro como um gênio

Desde a alma de Haeckel à alma cenobial!...

Rasgo dos mundos o velário espesso;

E em tudo, igual a Goethe, reconheço

O império da substância universal!

ALUCINAÇÃO À BEIRA-MAR

Um medo de morrer meus pés esfriava.

Noite alta. Ante o telúrico recorte,

Na diuturna discórdia, a equórea coorte

Atordoadoramente ribombava!

Eu, ególatra céptico, cismava

Em meu destino!... O vento estava forte

E aquela matemática da Morte

Com os seus números negros, me assombrava!

Mas a alga usufrutuária dos oceanos

E os malacopterígios subraquianos

Que um castigo de espécie emudeceu,

No eterno horror das convulsões marítimas

Pareciam também corpos de vítimas

Condenadas à Morte, assim como eu!

AMOR E CRENÇA

Sabes que é Deus? Esse infinito e santo

Ser que preside e rege os outros seres,

Que os encantos e a força dos poderes

Reúne tudo em si, num só encanto?

Esse mistério eterno e sacrossanto,

Essa sublime adoração do crente,

Esse manto de amor doce e clemente

Que lava as dores e que enxuga o pranto?

Ah! Se queres saber a sua grandeza

Estende o teu olhar à Natureza,

Fita a cúp'la do Céu santa e infinita!

Deus é o Templo do Bem. Na altura imensa,

O amor é a hóstia que bendiz a crença,

Ama, pois, crê em Deus e... sê bendita!

AMOR E RELIGIÃO

Conheci-o: era um padre, um desses santos

Sacerdotes da Fé de crença pura,

Da sua fala na eternal doçura

Falava o coração. Quantos, oh! Quantos

Ouviram dele frases de candura

Que d'infelizes enxugavam prantos!

E como alegres não ficaram tantos

Corações sem prazer e sem ventura!

No entanto dizem que este padre amara.

Morrera um dia desvairado, estulto,

Su'alma livre para o céu se alara.

E Deus lhe disse: "És duas vezes santo,

Pois se da Religião fizeste culto,

Foste do amor o mártir sacrossanto."

ANDRÉ CHÉNIER

Na real magnificência dos gigantes

Grave como um lacedemônio harmoste

André Chénier ia subir ao poste

A que Luís XVI subira dantes!

Que a sua morte a homem nenhum desgoste

E incite o heroísmo das nações distantes!...

Por isso, ele, a morrer, canta vibrantes

Versos divinos que arrebatam a hoste.

Não há quem nele um só tremor denote!

- Continua a cantar, a alma serena...

Mas, de repente, pressentindo a lousa,

Batendo com a cabeça no barrote

Da guilhotina, diz ao povo: - "É pena!

- Aqui ainda havia alguma cousa..."

ANSEIO

Quem sou eu, neste ergástulo das vidas

Danadamente, a soluçar de dor?!

- Trinta trilhões de células vencidas,

Nutrindo uma efeméride interior.

Branda, entanto, a afagar tantas feridas,

A áurea mão taumatúrgica do Amor

Traça, nas minhas formas carcomidas,

A estrutura de um mundo superior!

Alta noite, esse mundo incoerente

Essa elementaríssima semente

Do que hei de ser, tenta transpor o Ideal...

Grita em meu grito, alarga-se em meu hausto,

E, ai! como eu sinto no esqueleto exausto

Não poder dar-lhe vida material!

AO LUAR

Quando, à noite, o Infinito se levanta

À luz do luar, pelos caminhos quedos

Minha tátil intensidade é tanta

Que eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos!

Quebro a custódia dos sentidos tredos

E a minha mão, dona, por fim, de quanta

Grandeza o Orbe estrangula em seus segredos,

Todas as coisas íntimas suplanta!

Penetro, agarro, ausculto, apreendo, invado,

Nos paroxismos da hiperestesia,

O Infinitésimo e o Indeterminado...

Transponho ousadamente o átomo rude

E, transmudado em rutilância fria,

Encho o Espaço com a minha plenitude!

Aos MEUS FILHOS

Na intermitência da vital canseira,

Sois vós que sustentais (Força Alta exige-o...)

Com o vosso catalítico prestígio,

Meu fantasma de carne passageira!

Vulcão da bioquímica fogueira

Destruiu-me todo o orgânico fastígio...

Dai-me asas, pois, para o último remígio,

Dai-me alma, pois, para a hora derradeira!

Culminâncias humanas ainda obscuras,

Expressões do universo radioativo,

Íons emanados do meu próprio ideal,

Benditos vós, que, em épocas futuras,

Haveis de ser no mundo subjetivo,

Minha continuidade emocional!

APOCALIPSE

Minha divinatória Arte ultrapassa

Os séculos efêmeros e nota

Diminuição dinâmica, derrota

Na atual força, integérrima, da Massa.

É a subversão universal que ameaça

A Natureza, e, em noite aziaga e ignota,

Destrói a ebulição que a água alvorota

E põe todos os astros na desgraça!

São despedaçamentos, derrubadas,

Federações sidéricas quebradas...

E eu só, o último a ser, pelo orbe adiante,

Espião da cataclísmica surpresa,

A única luz tragicamente acesa

Na universalidade agonizante!

APÓSTROFE À CARNE

Quando eu pego nas carnes do meu rosto,

Pressinto o fim da orgânica batalha:

- Olhos que o húmus necrófago estraçalha,

Diafragmas, decompondo-se, ao sol posto...

E o Homem - negro e heteróclito composto,

Onde a alva flama psíquica trabalha,

Desagrega-se e deixa na mortalha

O tato, a vista, o ouvido, o olfato e o gosto!

Carne, feixe de mônadas bastardas,

Conquanto em flâmeo fogo efêmero ardas,

A dardejar relampejantes brilhos,

Dói-me ver, muito embora a alma te acenda,

Em tua podridão a herança horrenda,

Que eu tenho de deixar para os meus filhos!

ARA MALDITA

Como um'ave, cindindo os céus risonhos,

Meiga, tu vinhas a cindir os ares,

E, qual hóstia, caindo dos altares,

Foste caindo n'ara dos meus sonhos.

E eu vi os seios teus virem inconhos

- Esses teus seios que os cerúleos lares

Branquejaram de eternos nenufares,

Para nunca tocarem negros sonhos!

Caíste enfim no meu sacrário ardente,

Quiseste-me beijar a ara do peito,

E eu quis beijar-te o lábio redolente.

E beijei-te, mas eis que neste enleio,

Tocando n'ara negra o níveo seio,

Caíste morta ao celestial preceito.

ARIANA

Ela é o tipo perfeito da ariana.

Branca, nevada, púbere, mimosa,

A carne exuberante e capitosa

Trescala a essência que de si dimana.

As níveas pomas do candor da rosa,

Rendilhando-lhe o colo de sultana,

Emergem da camisa cetinosa

Entre as rendas sutis de filigrana.

Dorme talvez. Em flácido abandono

Lembra formosa no seu casto sono

A languidez dormente da indiana.

Enquanto o amante pálido, a seu lado,

Medita, a fronte triste, o olhar velado,

No Mistério da Carne Soberana.

AS CISMAS DO DESTINO

I

Recife. Ponte Buarque de Macedo.

Eu, indo em direção à casa do Agra,

Assombrado com a minha sombra magra,

Pensava no Destino, e tinha medo!

Na austera abóbada alta o fósforo alvo

Das estrelas luzia... O calçamento

Sáxeo, de asfalto rijo, antro e vidrento,

Copiava a polidez de um crânio calvo.

Lembro-me bem. A ponte era comprida,

E a minha sombra enorme enchia a ponte,

Como uma pele de rinoceronte

Estendida por toda a minha vida!

A noite fecundava o ovo dos vícios

Animais. Do carvão da treva imensa

Caía um ar danado de doença

Sobre a cara geral dos edifícios!

Tal uma horda feroz de cães famintos,

Atravessando uma estação deserta,

Uivava dentro do eu, com a boca aberta,

A matilha espantada dos instintos!

Era como se, na alma da cidade,

Profundamente lúbrica e revolta,

Mostrando as carnes, uma besta solta

Soltasse o berro da animalidade.

E aprofundando o raciocínio obscuro,

Eu vi, então, à luz de áureos reflexos,

O trabalho genésico dos sexos,

Fazendo à noite os homens do Futuro.

Livres de microscópios e escalpelos,

Dançavam, parodiando saraus cínicos,

Bilhões de centrossomas apolínicos

Na câmara promíscua do vitellus.

Mas, a irritar-me os globos oculares,

Apregoando e alardeando a cor nojenta,

Fetos magros, ainda na placenta,

Estendiam-se as mãos rudimentares!

Mostravam-se o apriorismo incognoscível

Dessa fatalidade igualitária,

Que fez minha família originária

Do antro daquela fábrica terrível!

A corrente atmosférica mais forte

Zunia. E, na ígnea crosta do Cruzeiro,

Julgava eu ver o fúnebre candieiro

Que há de me alumiar na hora da morte.

Ninguém compreendia o meu soluço,

Nem mesmo Deus! Da roupa pelas brechas,

O vento bravo me atirava flechas

E aplicações hiemais de gelo russo.

A vingança dos mundos astronômicos

Enviava à terra extraordinária faca,

Posta em rija adesão de goma laca

Sobre os meus elementos anatômicos.

Ah! Com certeza, Deus me castigava!

Por toda a parte, como um réu confesso,

Havia um juiz que lia o meu processo<

Copyright ©

Autor: Augusto Comte

Tradução: Renato Barboza Rodrigues Pereira

Edição eletrônica: Ed Ridendo Castigat Mores (www.jahr.org)

DISCURSO PRELIMINAR SOBRE O ESPÍRITO

POSITIVO

Augusto Comte

ÍNDICE

BIOGRAFIA DO AUTOR

DISCURSO SOBRE O ESPÍRITO POSITIVO

OBJETO DESTE DISCURSO

PARTE I SUPERIORIDADE MENTAL DO ESPÍRITO POSITIVO

Discurso preliminar sobre o espírito positivo

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Capítulo I – Lei da Evolução Intelectual da Humanidade ou Lei dos Três Estados.

Capítulo II – Destino do Espírito Positivo.

Capítulo III – Atributos Correlatos do Espírito Positivo e do Bom Senso

PARTE II SUPERIORIDADE SOCIAL DO ESPÍRITO POSITIVO

Capítulo I –Organização da Revolução

Capítulo II – Sistematização da Moral Humana

Capítulo III – Surto do Sentimento Social

PARTE III CONDIÇÕES DO ADVENTO DA ESCOLA POSITIVA

(Aliança dos Proletários e dos Filósofos)

Capítulo I – Instituição de um Ensino Popular Superior

Capítulo II – Instituição de uma Política Especialmente Popular

Capítulo III – Ordem Necessária dos Estudos Positivos

CONCLUSÃO – APLICAÇÃO AO ENSINO DA ASTRONOMIA

NOTAS

BIOGRAFIA DO AUTOR

Comte, cujo nome completo era Isidore-Auguste-Marie-François-Xavier Comte, nasceu em 19 de janeiro

de 1798, em Montpellier, e faleceu em 5 de setembro de 1857, em Paris. Filósofo e auto-proclamado

líder religioso, deu à ciência da Sociologia seu nome e estabeleceu a nova disciplina em uma forma

sistemática.

Foi aluno da célebre École Polytechnique, uma escola em Paris fundada em 1794 onde se ensinava a

ciência e o pensamento mais avançados da época. De família pobre, sustentou seus estudos com o ensino

ocasional da matemática e oportunidades no jornalismo.

Um de seus primeiros empregos foi o de secretário do Conde Henri de Saint-Simon, o primeiro filósofo a

ver claramente a importância da organização econômica na sociedade moderna, e cujas idéias Comte

absorveu, sistematizou com um estilo pessoal e difundiu.

Comte foi apresentado ao filósofo, então diretor do periódico Industrie, no verão de 1817. Saint-Simon,

um homem de fértil, mas tumultuada e desordenada criatividade, então quase sessenta anos mais velho

que Comte, foi atraído pelo jovem brilhante que possuia a capacidade treinada e metódica para o trabalho

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que lhe faltava. Comte tornou-se seu secretário e colaborador próximo, na preparação de seus últimos

trabalhos. Quando Saint-Simon experimentou problemas financeiros, Comte permaneceu sem pagamento

tanto por razões intelectuais como pela esperanças da recompensa futura.

Os esboços e os ensaios que Comte escreveu durante os anos da associação próxima com Saint-Simon,

especialmente entre 1819 e 1824, mostram inequivocamente a influência do mestre. Esses primeiros

trabalhos já contêm o núcleo de todas suas idéias principais, mesmo as mais tardias. Em 1824 Comte

desentendeu-se com Saint-Simon por questões de autoria legítima de ensaios que Comte devia publicar.

A solução, que Comte considerou injusta, foi que cem cópias do trabalho saíram sob o nome de Comte,

enquanto mil cópias, intituladas Catechisme des industriels indicavam a autoria de Henri de Saint-Simon.

Outra causa do rompimento foi, ironicamente, Comte desdenhar a idéia de um paradigma religioso no

projeto de Saint Simon, ele, Comte, que depois haveria de adotar essa idéia proclamando a si mesmo

como sumo sacerdote da Humanidade.

Em fevereiro 1825 Comte se casou com Caroline Massin, proprietária de uma pequena livraria, uma

moça que ele já conhecia. Comte a achava forte e inteligente, mas depois taxou-a de ambiciosa e

desprovida de afetividade. O casamento foi sempre tumultuado por motivos financeiros, uma vez que

Comte não conseguia uma posição com salário fixo e contava apenas com os rendimentos das aulas

particulares e alguma renda adicional por colaborações a jornais, mais freqüentemente para o Producteur,

um jornal fundado pelos filhos espirituais de Saint-Simon após a morte do mestre.

Depois de se afastar de Saint Simon, a principal preocupação de Comte tornou-se a elaboração de sua

filosofia positiva. Não tendo nenhuma cadeira oficial da qual expor suas teorias, decidiu oferecer um

curso particular que os interessados subscreveriam adiantado, e onde divulgaria sua Summa do

conhecimento positivo. O curso abriu em abril, 1826, com a presença de alguns curiosos ilustres como

Alexander von Humboldt, diversos membros da academia das ciências, o economista Charles Dunoyer, o

duque Napoleon de Montebello, e Hippolyte Carnot, filho do organizador dos exércitos revolucionários e

irmão do cientista Sadi Carnot, e vários estudantes da École Polytechnique.

Comte deu apenas três aulas e foi obrigado a interromper o curso devido a um colapso nervoso. Seu mal

foi diagnosticado como " mania " no hospital do famoso Dr. Esquirol, autor de um tratado sobre a

doença. Ele próprio submeteu Comte a um tratamento com banhos de água fria e sangrias. Apesar de não

receber alta, Comte foi levado para casa por Caroline

Após o retorno para casa, Comte caiu em um estado melancólico profundo, e tentou mesmo o suicidio

jogando-se no rio Sena. Somente em agosto 1828 logrou sair de sua letargia. O curso das conferências foi

recomeçado em 1829, e Comte ficou satisfeito outra vez por encontrar na audiência diversos nomes de

grandes das ciências e das letras.

Durante os anos 1830-1842, quando escreveu sua obra prima, Cours de philosophie positive, Comte

continuou a viver miseravelmente à margem do mundo acadêmico. Todas as tentativas de ser apontado

de para uma cadeira no École Polytechnique ou para uma posição na Academia das ciências ou na

faculdade de França foram infrutíferas. Controlou somente em 1832 a ser apontado assistente de "analyse

et de mecanique" no École; cinco anos mais tarde foi dado também as posições do examinador externo

para a mesma escola. A primeira posição trouxe valiosos dois mil francos e o segundo um pouco mais.

Mas era pouco para as despesas que tinha com a esposa e por isso continuou com as aulas particulares

para escapar da faixa de pobreza.

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Durante os anos da concentração intensa quando escreveu o Cours, Comte foi incomodado não somente

por dificuldades financeiras e as frustradas tentativas de emprego acadêmico. Também sofreu críticas do

mundo científico por parte de importantes figuras que o ridicularizavam pela sua pretensão de submeter

ao seu sistema todas as ciências. A mágoa agravou seu estado psicológico. Por razões "de higiene

cerebral", decidiu-se, em 1838, a não ler mais uma linha de qualquer trabalho científico, limitando-se à

leitura de ficção e poesia. Em seus últimos anos o único livro que haveria de ler repetidamente seria o

"Imitação de Cristo". Sua vida matrimonial, que sempre fora tempestuosa, também se desfez. Comte teve

várias separações de Caroline, que não suportava os seus fracassos e terminou por deixá-lo

definitivamente em 1842.

Só e isolado, continuou a atacar os cientistas que se recusaram a reconhecê-lo. Queixou-se de seus

inimigos aos ministros do Rei, escreveu cartas delirantes à imprensa e atormentou a paciência de seus

poucos restantes amigos. Criando demasiado inimigos na École Polytechnique, sua nomeação como o

examinador não foi renovada em 1844. Perdeu com isto a metade de sua renda. (iria perder também a

posição de assistente na École em 1851.)

Contudo apesar de todos estas adversidades, Comte começou lentamente a adquirir discípulos. E mais

importante para ele foi que, além de encontrar alguns discípulos franceses notáveis, tais como o eminente

intelectual Emile Littre, era o fato de que sua doutrina positiva havia atravessado o Canal e recebera

considerável atenção na Inglaterra. David Brewster, um físico eminente, saudou-o nas páginas do

Edinburgh Review em 1838 e, o mais gratificante de tudo, John Stuart Mill transformou-se em seu

admirador, citando-o em seu System of Logic (1843) como um dos principais pensadores europeus.

Comte e Mill se corresponderam regularmente, e serviu a Comte não somente para refinar seus

pensamentos como também para desabafar com o filósofo inglês as tribulações de sua vida conjugal e as

dificuldades de sua existência material. Mill arrecadou entre admiradores britânicos de Comte uma soma

considerável em dinheiro e lhe enviou como socorro para suas dificuldades financeiras.

No mesmo ano de 1844, Comte conheceu Clotilde de Vaux, por quem se apaixonou. Ela era uma mulher

de trinta anos abandonada pelo marido, um funcionário público do baixo escalão, que havia fugido do

país depois de se apropriar de fundos do governo. Um irmão de Clotilde que havia sido aluno de Comte

na Escola Politécnica, e o convidou a ir à casa de seus pais, onde lhe apresentou a irmã.

Comte ficou inteiramente seduzido por ela. Sua paixão teve, porém, um desdobramento inusitado.

Clotilde estva impedida pela lei de casar-se achando-se o seu marido foragido. Auguste Comte tinha

então quarenta e sete anos, e havia se separado três anos antes de sua mulher. Acabara de concluir seu

monumental Cours de philosophie positive, e se preparava para escrever o que pretendia que seria sua

principal obra, o Système de politique positive, da qual ele considerava o Cours de philosophie como

apenas uma introdução. Entusiasmado com a própria paixão, Auguste Comte afirma que nada pode ser

mais eficaz para o bem pensar que o bem querer, e se tornou um abrasado feminista. Afirmava que a

mulher encarnava o sentimento e portanto, em última análise, a própria Humanidade. Buscou então

seriamente associar o sexo feminino, na pessoa de Clotilde, à obra de renovação social e moral que se

impôs completar. Clotilde tentou colaborar, através de um romance filosófico, Wilhelmine, que ela se

pôs febrilmente a escrever. Mas adoeceu de tuberculose e veio a falecer em 1846.

Comte devotou o resto de sua vida à memória do "seu anjo". O Système de politique positive, que tinha

começado a esboçar em 1844 e no qual completou sua formulação da sociologia, iria transformar-se em

um memorial a sua amada. Cinco anos mais tarde, em 1851, ao publicar essa obra, dedicou-a a Clotilde,

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dizendo esperar que a humanidade, reconhecida, haveria de lembrar sempre seu nome junto ao dela.

No Système de politique positive, Comte, voltando-se contra a doutrina do mestre Saint-Simon, defendeu

a primazia da emoção sobre o intelecto, do sentimento sobre a racionalidade; e proclamou repetidamente

o poder curativo do calor feminino para a humanidade dominada por tempo demasiado pela aspereza do

intelecto masculino. Por outro lado, maquiou a proposta de disciplina eclesiástica de Saint-Simon criando

a Religião da Humanidade.

Quando o Système apareceu entre 1851 e 1854, Comte escandalizou e perdeu a maioria dos seguidores

racionalistas que ele havia conquistado com tanta dificuldade nos últimos quinze anos. John Stuart Mill e

Emile Littre não aceitaram que o amor universal fosse a solução para todas as dificuldades da época. Tão

pouco aceitariam a Religião da Humanidade da qual Comte se proclamou agora o sumo sacerdote. A

observação dos rituais múltiplos segundo o calendário anual, os detalhes da elaborada liturgia indicavam

que o antigo profeta do estágio positivo havia regressado às trevas do estágio teológico. Comte passou a

assinar suas circulares - aos novos discípulos que conseguiu reunir - como "fundador da religião

universal e sumo sacerdote da humanidade". Tentou converter o Superior Geral dos Jesuítas à nova fé e

comparou suas circulares aos discípulos com as epístolas de São Paulo. Fundou a Societé Positiviste, que

se transformou no centro principal de seu ensino. Os membros se cotizaram para assegurar a subsistência

do mestre e fizeram os votos de espalhar sua mensagem. As missões se instalaram, na Espanha,

Inglaterra, Estados Unidos, e na Holanda. Cada noite, das sete às nove, exceto nas quartas-feiras quando

a Societé Positiviste tinha sua reunião regular, Comte recebia seus discípulos em sua casa em Paris:

políticos, intelectuais e operários, que lhe votavam grande respeito e veneração. Comte estava longe do

entusiasmo republicano e libertário de sua juventude. O moto da Igreja Positiva era amor, ordem e

progresso. O jovem estudante de passeata agora pregava as virtudes do amor, da submissão e a

necessidade da ordem para o progresso social.

Em 1857, Comte, após alguns meses de enfermidade, faleceu a cinco de setembro. Um grupo pequeno de

discípulos, de amigos, e de vizinhos seguiu seu esquife ao cemitério de Pere Lachaise. Seu túmulo

transformou-se no centro de um pequeno cemitério positivista onde estão sepultados, perto do mestre,

seus discípulos mais fiéis.

Pensamento. A contribuição principal de Comte à filosofia do positivismo foi sua adoção do método

científico como base para a organização política da sociedade industrial moderna, de modo mais rigoroso

que na abordagem de Saint Simon. Em sua Lei dos três estados ou estágios do desenvolvimento

intelectual, Comte teorizou que o desenvolvimento intelectual humano havia passado historicamente

primeiro por um estágio teológico, em que o mundo e a humanidade foram explicados nos termos dos

deuses e dos espíritos; depois através de um estágio metafísico transitório, em que as explanações

estavam nos termos das essências, de causas finais, e de outras abstrações; e finalmente para o estágio

positivo moderno. Este último estágio se distinguia por uma consciência das limitações do conhecimento

humano. As explanações absolutas consequentemente foram abandonadas, buscando-se a descoberta das

leis baseadas nas relações sensíveis observáveis entre os fenômenos naturais.

Comte tentou também uma classificação das ciências; baseada na hipótese que as ciências tinham

desenvolvido da compreensão de princípios simples e abstratos à compreensão de fenômenos complexos

e concretos. Assim as ciências haviam se desenvolvido a partir da matemática, da astronomia, da física, e

da química para a biologia e finalmente a sociologia. De acordo com Comte, esta última disciplina não

somente fechava a série mas também reduziria os fatos sociais às leis científicas e sintetizaria todo o

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conhecimento humano.

Embora não fosse de Comte o conceito de sociologia ou da sua área de estudo, ele ampliou seu campo e

sistematizou seu conteúdo. Dividiu a Sociologia em dois campos principais: Estática social, ou o estudo

das forças que mantêm unida a sociedade; e Dinâmica social, ou o estudo das causas das mudanças

sociais.

Dando nova roupagem às idéias de Hobbes e Adam Smith, afirmou que os princípios subjacentes da

sociedade são o egoísmo individual, que é incentivado pela divisão de trabalho, e a coesão social se

mantém por meio de um governo e um estado fortes.

Como Saint Simon, queria a administração real do governo e da economia nas mãos dos homens de

negócios e dos banqueiros, porém deu um toque pessoal seu, com origem em sua paixão por Clotilde,

dizendo que a manutenção da moralidade privada seria competência das mulheres como esposas e mães.

Dando ênfase à hierarquia e obediência, rejeitou a democracia, sustentando que o governo ideal seria

constituído por uma elite intelectual. Seu conceito de uma sociedade positiva está no seu Système de

politique positive ("Sistema de Política Positiva").

Como Saint-Simon, ele veio a adotar a idéia de que a organização da igreja católica romana, divorciada

da teologia cristã, podia fornecer um modelo estrutural e simbólico para a sociedade nova, idéia que, no

entanto, fora uma das causas alegadas para seu rompimento com o mestre. Comte substituiu a adoração a

Deus por uma "religião da humanidade"; um sacerdócio espiritual de sociólogos seculares guiaria a

sociedade e controlaria a instrução e a moralidade pública. Comte viveu para ver sua obra comentada

extensamente em toda a Europa. Muitos intelectuais ingleses foram influenciados por ele, e traduziram e

promulgaram seu trabalho. Seus devotos franceses tinham aumentado também, e mantinha uma

correspondência volumosa com sociedades positivistas em todo o mundo.

A habilidade particular de Comte era como um sintetizador das correntes intelectuais as mais diversas.

Tomou idéias principalmente dos filósofos modernos do século XVIII. De Saint-Simon e outros

reformadores franceses menores Comte tomou a noção de uma estrutura hipotética para a organização

social que imitaria a hierarquia e a disciplina existente na igreja católica romana. De vários filósofos do

Iluminismo adotou a noção do progresso histórico e particularmente de David Hume e Immanuel Kant

tomou sua concepção de positivismo, ou seja, a teoria de que o Teologia e a Metafísica são modalidades

primárias imperfeitas do conhecimento e que o conhecimento positivo é baseado em fenômenos naturais

e suas propriedades e relações como verificado pelas ciências empíricas, tese Kantiana por excelência.

O mais importante realmente provém de Saint-Simon, que havia enfatizado originalmente a importância

crescente da ciência moderna e o potencial da aplicação de métodos científicos ao estudo e à melhoria da

sociedade.

De Saint-Simon é originalmente a idéia de que a finalidade da análise científica nova da sociedade deve

ser amelhorativa e que o resultado final de toda a inovação e sistematização na nova ciência deve ser a

orientação do planeamento social. Comte também pensou que era necessário implantar uma ordem

espiritual nova e secularizada a fim de suplantar o sobrenaturalismo ultrapassado da teologia cristã.

Comte seguiu Saint-Simon quando considerou a necessidade de uma ciência social básica e unificadora

que explicasse as organizações sociais existentes e guiasse o planeamento social para um futuro melhor.

Na sua hábil sistematização Comte chamou esta nova ciência "Sociologia", pela primeira vez.

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Temerariamente, porém, foi mais adiante que seu mestre quando afirmou que os fenômenos sociais

poderiam ser reduzidos a leis da mesma maneira que as órbitas dos corpos celestes haviam sido

explicadas pela teoria gravitacional quase trezentos anos antes.

DISCURSO SOBRE O ESPÍRITO POSITIVO

OBJETO DESTE DISCURSO

1. O conjunto dos conhecimentos astronômicos não deve mais ser considerado isoladamente, como até

aqui, mas constituir de ora avante apenas um dos elementos indispensáveis do novo sistema indivisível

de filosofia geral que hoje atingiu finalmente sua verdadeira maturidade abstrata, depois de ter sido

gradualmente preparado pelo concurso espontâneo dos grandes trabalhos científicos dos três últimos

séculos. Em virtude desta íntima conexidade, ainda pouco compreendida, a natureza e o destino deste

Tratado não poderão ser devidamente apreciados se este preâmbulo imprescindível não for consagrado

sobretudo à definição conveniente do verdadeiro e fundamental espírito desta filosofia, cuja instalação

universal deve ser, no fundo, o objetivo precípuo de semelhante ensino. Como ela se distingue

principalmente pela continua preponderância, a um tempo lógica e científica, do ponto de vista histórico

ou social, devo antes de tudo, para melhor caracterizá-la, lembrar de modo sumário a grande lei que

estabeleci, em meu Sistema de Filosofia Positiva, sobre a evolução total da Humanidade, lei à qual os

nossos estudos astronômicos hão de recorrer com freqüência.

I PARTE

SUPERIORIDADE MENTAL DO ESPÍRITO POSITIVO

CAPÍTULO I

LEI DA EVOLUÇÃO INTELECTUAL DA HUMANIDADE OU LEI DOS TRÊS ESTADOS

2. De acordo com esta doutrina fundamental, todas as nossas especulações estão inevitavelmente sujeitas,

assim no indivíduo como na espécie, a passar por três estados teóricos diferentes e sucessivos, que

podem ser qualificados pelas denominações habituais de teológico, metafísico e positivo, pelo menos

para aqueles que tiverem compreendido bem o seu verdadeiro sentido geral. O primeiro estado, embora

seja, a princípio, a todos os respeitos, indispensável deve ser concebido sempre, de ora em diante, como

puramente provisório e preparatório; o segundo, que é, na realidade, apenas a modificação dissolvente do

anterior, não comporta mais que um simples destino transitório, para conduzir gradualmente ao terceiro;

é neste, único plenamente normal, que consiste, em todos os. gêneros, o regime definitivo da razão

humana.

I. Estado teológico ou fictício

3. No seu primeiro surto, necessariamente teológico, todas nossas especulações manifestam de modo

espontâneo uma predileção característica pelas mais insolúveis questões, pelos assuntos mais

radicalmente inacessíveis a qualquer investigação decisiva. O espírito humano, numa época em que está

ainda abaixo dos mais simples problemas científicos, por um contraste, que em nossos dias deve

parecer-nos à primeira vista inexplicável, mas que, no fundo, se acha então em plena harmonia com a

verdadeira situação inicial da nossa inteligência, procura avidamente, e de maneira quase exclusiva, a

origem de todas as coisas, as causas essenciais, quer primárias, quer finais, dos diversos fenômenos que o

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impressionam, e seu modo fundamental de produção, em uma palavra, os conhecimentos absolutos. Esta

necessidade primitiva se acha naturalmente satisfeita tanto quanto o exige tal situação é mesmo, de fato,

tanto quanto o possa jamais ser, por nossa tendência inicial a transportar por toda a parte o tipo humano,

assimilando quaisquer fenômenos aos que nós mesmos produzimos, os quais, por esta razão, começam a

parecer-nos bastante conhecidos, em virtude da intuição imediata que os acompanha. Para compreender

bem o espírito puramente teológico, proveniente do desenvolvimento, cada vez mais sistemático, deste

estado primordial, cumpre não nos limitarmos a considerá-lo na sua última fase que se consuma, à nossa

vista, nas populações mais adiantadas, mas que está longe de ser a mais característica: torna-se

indispensável lançarmos uma vista de olhos verdadeiramente filosófica sobre o conjunto de sua marcha

natural, a fim de apreciarmos sua identidade fundamental sob as três formas principais que lhe são

sucessivamente próprias.

4. A mais imediata e a mais pronunciada destas formas constitui o fetichismo propriamente dito, que

consiste sobretudo em atribuir a todos os corpos exteriores uma vida essencialmente análoga à nossa,

quase sempre, porém mais enérgica, em virtude de sua ação, de ordinário, mais poderosa. A adoração dos

astros caracteriza o grau mais elevado desta primeira fase teológica que, no começo, quase não difere do

estado mental a que atingem os animais superiores. Ainda que esta primeira forma de filosofia teológica

se manifeste com evidência na história intelectual de todas as nossas sociedades, ela já não domina

diretamente hoje senão na menos numerosa das três grandes raças que compõem a nossa espécie.

5. Na sua segunda fase essencial, que constitui o verdadeiro politeísmo, muitas vezes confundido pelos

modernos com o estado precedente, o espírito teológico representa claramente o livre predomínio

especulativo da imaginação, ao passo que até então o instinto e o sentimento tinham sobretudo

prevalecido nas teorias humanas. A filosofia inicial sofre nessa época a mais profunda transformação,

que o conjunto do seu destino real pode comportar, por isso que nela a vida é enfim retirada dos objetos

materiais, para ser misteriosamente transportada a diversos seres fictícios, habitualmente invisíveis, cuja

intervenção ativa e contínua se torna daí por diante a origem direta de todos os fenômenos exteriores e

mesmo em seguida dos fenômenos humanos. E durante esta fase característica, mal apreciada hoje, que

convém principalmente estudar o espírito teológico, que nele se desenvolve com uma plenitude e uma

homogeneidade impossível ulteriormente: esta época é, a todos os respeitos, a do seu maior ascendente,

ao mesmo tempo mental e social. A maioria de nossa espécie não saiu ainda de semelhante estado, que

persiste hoje na mais numerosa das três raças humanas, no escol da raça negra e na parte menos avançada

da branca.

6. Na terceira fase teológica, o monoteísmo propriamente dito dá começo ao inevitável declínio da

filosofia inicial. Esta, embora conserve por dilatado tempo grande influência social, contudo mais

aparente ainda do que real, sofre desde então rápido decréscimo intelectual, como conseqüência

espontânea desta simplificação característica pela qual a razão, unificando os deuses, restringe cada vez

mais o domínio anterior da imaginação e permite desenvolver gradualmente o sentimento universal,

ainda quase insignificante, da sujeição forçosa de todos os fenômenos naturais a leis invariáveis. Sob

formas mui diversas e até radicalmente inconciliáveis, esta fase extrema do regime preliminar persiste

ainda, com energia muito desigual, na imensa maioria da raça branca; mas ainda que seja assim mais

fácil de ser observada, as próprias preocupações pessoais acarretam hoje um obstáculo muito freqüente à

sua judiciosa observação, por falta de uma comparação suficientemente racional e justa com as duas

fases precedentes.

7. Por mais imperfeita que possa parecer agora semelhante maneira de filosofar, muito importa ligar de

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modo indissolúvel o estado atual do espírito humano ao conjunto dos seus estados anteriores,

reconhecendo convenientemente que ela devia ter sido, por muito tempo, tão indispensável como

inevitável. Limitando-nos aqui à simples apreciação intelectual, seria por certo supérfluo insistir sobre a

tendência involuntária que, mesmo hoje, nos arrasta todos às explicações de pura essência teológica, logo

que queremos penetrar diretamente o mistério inacessível do modo fundamental de produção dos

fenômenos, sobretudo daqueles cujas leis reais ainda ignoramos. Os mais eminentes pensadores podem

então verificar a sua própria disposição natural para o mais ingênuo fetichismo, quando esta ignorância

se acha combinada momentaneamente com alguma paixão pronunciada. Se, pois, todas as explicações

teológicas, experimentaram crescente e decisivo desuso entre os modernos ocidentais, isto aconteceu

porque as investigações misteriosas que elas visavam foram cada vez mais afastadas como radicalmente

inacessíveis à nossa inteligência, que se habituou pouco a pouco a substitui-las de modo irrevogável por

estudos mais eficazes e mais em harmonia com as nossas verdadeiras necessidades. Mesmo na época em

que o verdadeiro espírito filosófico já tinha prevalecido em relação aos mais simples fenômenos e em

assunto tão fácil como a teoria elementar do choque, o memorável exemplo de Malebranche lembrará

sempre a necessidade de se recorrer à intervenção direta e constante dos agentes sobrenaturais, todas as

vezes que se procure remontar à causa primeira de qualquer acontecimento. Ora, por outro lado, tais

tentativas, por mais pueris que pareçam justamente hoje, constituíam sem dúvida o início meio primitivo

de provocar as especulações humanas e determinar o seu progresso contínuo, libertando de modo

espontâneo nossa inteligência do círculo vicioso em que a princípio se acha necessariamente envolvida

pela oposição radical de duas condições por igual imperiosas. Se, de fato, os modernos tiveram de

proclamar a impossibilidade de fundar qualquer teoria sólida a não ser sobre um concurso suficiente de

observações adequadas, não é menos incontestável que o espírito humano não poderia jamais combinar,

nem mesmo recolher, esses materiais indispensáveis, sem ser continuamente dirigido por algumas idéias

especulativas previamente estabelecidas. Assim estas concepções primordiais só podiam, é claro, resultar

de uma filosofia que prescindisse, por sua natureza, de qualquer preparo prolongado, sendo capaz, em

uma palavra, de surgir espontaneamente, sob o impulso único de um instinto direto, por mais quiméricas

que devessem ser, além disso, especulações tão desprovidas de todo fundamento real. Tal é o feliz

privilégio dos princípios teológicos, sem os quais podemos assegurar que a nossa inteligência não

poderia nunca sair do seu torpor inicial; a eles permitiram, dirigindo sua atividade especulativa, preparar

gradualmente um regime lógico melhor. Esta aptidão fundamental foi, além disto, poderosamente

secundada pela primitiva predileção do espírito humano pelas questões insolúveis, que atraíam sobretudo

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